O hilemorfismo aristotélico
No famoso quadro de Rafael acerca do conhecimento das causas, entre nós conhecido como A Escola de Atenas, o centro é ocupado por dois personagens: o da esquerda é Platão, em cuja mão esquerda está apoiado o seu diálogo Timeu, enquanto a direita indica para o lá do alto; o personagem da direita é Aristóteles, cuja mão esquerda segura seu tratado Ética a Nicômaco, enquanto a outra espalma para o aqui embaixo. Tal imagem sublinha que Aristóteles é um hilemorfista [matéria (hilé) e forma (morphé)], pois, se, para o autor do Timeu, o conhecimento das causas essenciais se dá na visão contemplativa das ideias transcendentes e imutáveis, em relação às quais o mundo da matéria sensorial é mutabilidade, sombra e ilusão; para o outro, o conhecimento dessas causas se dá pela reflexão abstrativa das formas imanentes, em relação às quais o mundo da matéria sensorial e mutável é ato e realidade.
A importância do hilemorfismo aristotélico revela-se à luz da ideia de uma história universal com propósito tecnológico, em que a ciência, inicialmente ocupando o lugar do verbo logoico arquitetado pelos pré-socráticos, passa ao útero do discurso socrático e termina levada aos céus, por Platão. Em tal história de deslocamentos simbólicos da ciência, o hilemorfismo aristotélico equivale à instauração da via sacra que liga a ciência celeste à técnica terrena, a via (tecno)lógica na qual transitará a chamada ciência moderna.
É no interior da filosofia aristótélica que a essência científica se encontra com o acidente científico; que o seu ethos invisível, nomênico e inteligível se encontra com um destino visível e fenomênico. Tal como a Láquesis do mito de Er, Aristóteles entrega à ciência o seu daimon, restando saber se este resultará em qualidade de eudaimonia[1] ou de kakodaimonia.
Notas
[1] No contexto aristotélico, a palavra eudaminoia nasce da junção de três palavras: (i) eu-(εὖ), um prefixo que significa "bom" ou "bem" e que está na raiz de palavras como eufonia (bom som), eutanásia (boa morte), eulogia (bom discurso), eugenia (boa genética), etc; (ii) daimon (δαίμων), que significa "espírito", "entidade divina", "gênio tutelar" ou "aquilo que distribui os destinos", "força interior/guia espiritual que orienta uma natureza", "demônio" (mas sem a atual conotação negativa da palavra); (iii) -ia (-ία), sufixo formador de substantivos que indica um "estado", "condição" ou "qualidade". A palavra ou prefixo caco- (frequentemente transliterado como kako-) deriva diretamente do adjetivo grego antigo kakós (κακός). Na Grécia Antiga, kakós era a palavra padrão para designar tudo o que era "mau", "ruim", "feio", "defeituoso", "covarde" ou "vil". Caco- está em cacofonia: mau som, cacografia: má escrita, caquexia: mau/má hábito/condição.
Um exemplo emblemático de eudaimonia é narrado no Livro XIII das Metamorfoses, de Ovídio, quando se conta como se deu a defesa de Ulisses contra Ájax, Alí é descrito como Ulisses se disfarçou de mercador e usou um escudo e uma lança para descobrir Aquiles, o filho do mortal Peleu com a deusa Tétis, na ilha de Ésquiro entre as filhas do rei Licomedes. É que, contrariando o ethos guerreiro do peleida, a mãe deste, amedrontada por saber que a guerra de Troia atrairia o filho para a morte, providenciou que Aquiles vivesse disfarçado de donzela no meio de donzelas, contrariando assim o daimon do rapaz. Quando Ulisses chega em Ésquiro, disfarçado de mercador fenício para exibir seus produtos às princesas no pátio interno, o falso mercador deixa como que exibidos acidentalmente e ao alcance dos olhos da donzela Pirra (que se sabia ser Aquiles) uma espada e um escudo junto aos baús cheios de delicados vestidos luxuosos, perfumes e joias para que, enquanto aos moças estivessem distraídas experimentando os adornos, um sinal de trombeta de guerra, acompanhado por gritos e batidas de espadas, simulando um ataque surpresa ao palácio, revelasse o ethos do guerreiro, o que de fato acontece: diante do alarme, as verdadeiras princesas fogem apavoradas para dentro do palácio em busca de segurança. Aquiles, no entanto, age conforme o seu ethos, desvencilhando-se das roupas femininas e imediatamente agarrando a espada e o escudo para enfrentar o (suposto) inimigo, realizando assim a sua eudaimonia, fenomenizando do seu nômeno guerreiro. Em sua defesa do direito de herdar as armas do maior guerreiro de Troia, declara Odisseu: "eu introduzi, entre as mercadorias destinadas às mulheres, armas que despertariam seu instinto viril" (Ovídio, [Metamorfoses], 2003, Livro XIII [O julgamento das armas], p. 304). Uma célebre frase de Aquiles a Odisseu atesta a força decisiva e irremovível da eudaimonia aquiliana, do encontro entre o seu ethos e o seu destino, entre a sua verdade do coração e a sua verdade das palavras e ações: "me é odioso, tanto quanto os portões do Hades, aquele que oculta uma coisa na mente e diz outra." (Homero, [Ilíada], Canto IX, versos 312 e 313).
No que diz respeito à ciência, há a questão de saber qual é o ethos da ciência? De saber se esse ethos, uma vez tendo encontrado o seu daimon, verá realizada uma eudaimonia ou uma cacodaimonia. De saber se a eudaimonia científica coincide com a eudaimonia humana. O que está em jogo aqui é entender a fratura entre o que a ciência é na sua essência e o que ela faz no mundo. Em uma leitura crítica da contemporaneidade, cabe indagar quem ou o que será o Odisseu que fará a ciência abandonar as vestes do lucro e do poder para se revelar como ciência nua, em sua verdade mais própria.
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| A Eudaimonia de Aquiles | A Eudaimonia da Ciência |
Referências
ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2005.
COSTA, Israel Alexandria. O hilemorfismo aristotélico. Arapiraca, AL: Grupo de Pesquisa Gnosiologia, Ética e Informação / CNPq / Ufal - Projeto Web Filosofia, 2021. Disponível em: https://www.gpgeinfo.org/p/arsttlshlmrfsm.html. Acesso em: 7 maio 2021.
FRANTZ, Ricardo André. A Escola de Atenas, de Rafael Sanzio (Urbino, 6 abr. 1483 - Roma, 6 abr. 1520), criada em 1 jan. 1509: afresco no Vaticano. 7 ago. 2010. 1 fotografia, color., Altura: 790 pixels. Largura: 1170 pixels. 72 dpi. 24 BIT RGB. 1.01Mb. Formato JPG. Permissão: domínio público. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_de_Atenas#/media/Ficheiro:Escola_de_Atenas_-_Vaticano_2.jpg. Acesso em: 16 out. 2017.
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REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Filosofia pagã antiga. Tradução Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003. 7 v., v. 1.
OVÍDIO. Metamorfoses. Tradução Vera Lucia Leitão Magyar. São Paulo: Madras, 2003.
HOMERO. Ilíada. Tradução Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin-Companhia, 2013.
HOMERO. Odisseia. Tradução Frederico Lourenço. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
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