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Apostila — Aula 6: O Mito de Er — GP GEINFO
Curso Livre · Mitos Platônicos
O Mito de Er
Aula 06 de 12  ·  08 de abril de 2026
GP GEINFO / UFAL  ·  Prof. Israel Costa

Apresentação

O Mito de Er ocupa o encerramento d'A República de Platão (Livro X) e representa um dos mais ambiciosos relatos escatológicos da filosofia ocidental. Narrado por Sócrates com a declarada intenção de superar Homero, o mito apresenta Er, soldado de origem armênia que, após morrer em batalha, retorna à vida e descreve o que testemunhou no além: o julgamento das almas, a geometria do cosmos governado pelas Moiras, a escolha de um novo modelo de existência e o esquecimento induzido pelas águas do Letes.

Mais do que uma narrativa post mortem, o Mito de Er é uma rigorosa tese ética: a responsabilidade radical pelo próprio destino pertence exclusivamente ao agente que escolhe. "A culpa é de quem escolhe; a divindade não tem culpa alguma" — a frase lapidar do sacerdote de Láquesis condensa o programa moral platônico. Ao vincular liberdade, necessidade, caráter (ethos) e daimon, o mito integra as principais linhas especulativas da tradição grega numa síntese dramática e filosófica de rara força.

Esta apostila percorre o mito em suas grandes sequências narrativas — o prado do julgamento, o Fuso da Necessidade, o catálogo das metamorfoses, a figura do daimon e o rio do esquecimento —, confrontando o texto platônico com a leitura contemporânea de Giorgio Agamben e com a máxima de Heráclito sobre ethos e destino.

01

Er, o Vigilante: Morte, Ressurreição e Etimologia

O relato principia com a identificação do protagonista. Er, filho de Armênio, é apresentado como soldado caído em batalha. Seu corpo permanece insepulto por dez dias sem dar sinais de putrefação — anomalia que os recolhedores de mortos notam com espanto. Transportado à pira funerária já aos doze dias da morte, Er desperta vivo e passa a narrar o que suas olhos contemplaram no além.

A etimologia do nome revela camadas de sentido. No radical semítico, Er remete à vigília, ao estado de desperto; no contexto mitológico iraniano, ao filho da harmonia; na síntese proposta pelo professor, ao vigilante renascido, filho da estrutura harmônica, representando toda a humanidade. O nome funciona, portanto, como cifra programática: Er não é herói acidental, mas testemunho paradigmático da condição humana diante do cosmos e da escolha.

O paralelo com a narrativa de Lázaro foi evocado durante a aula: alguém que morreu e voltou para contar. Mas a diferença é estrutural. Lázaro é ressuscitado por graça divina; Er retorna por missão cognitiva — ele não pode beber o Letes nem escolher modelo de vida, pois está ali unicamente para observar e transmitir o que a humanidade precisa saber sobre como escolher bem a própria existência.

O Prado e as Fendas do Cosmos
Significado do nome Er
Quando chegou sua hora de ser colocado na pira, Er acordou e descreveu o que havia testemunhado — prados, juízes, fendas no céu e na terra, almas em movimento. O juiz dissera-lhe: "Você está aqui apenas para observar e contar aos homens o que viu."
Er — ἐρ · vigilante / desperto PLATÃO, A República, X, 614b–615c (trad. M. H. Rocha Pereira)

Para Refletir

  1. O fato de Er não poder escolher modelo de vida nem beber o Letes indica que sua função é estritamente testemunhal. Em que sentido essa condição transforma o mito em projeto filosófico-pedagógico, e não apenas em narrativa religiosa?
  2. A etimologia do nome Er ("vigilante renascido") possui ressonâncias em tradições espirituais diversas (espiritismo, mística iraniana, livro de Enoque). Qual é o risco e qual é a riqueza de ler um mito filosófico através dessas correspondências comparativas?
02

O Prado do Julgamento e a Matemática das Penas

Ao sair do corpo, a alma de Er se junta a uma multidão que marcha em direção a um prado. Ali estão quatro fendas: duas na terra (uma de entrada e uma de saída para o subterrâneo) e duas no céu (uma de entrada e uma de saída para o espaço celeste). Juízes presentes no prado avaliam as almas e as encaminham para o alto ou para baixo conforme seus atos em vida.

O Prado com as quatro fendas
O Prado com as quatro fendas — duas no solo (subterrâneo e saída do subterrâneo) e duas no céu — local onde as almas são julgadas e aguardam (A República, X, 614b–615a).

Platão rompe com a escatologia punitiva do mito popular ao introduzir uma aritmética precisa: a vida humana vale aproximadamente cem anos; cada ato moral — bom ou mau — é recompensado ou punido com o décuplo. Assim, cada alma permanece mil anos no subterrâneo ou no espaço celeste, respectivamente, antes de retornar ao prado. Penas eternas são explicitamente rejeitadas: as almas que saem do subterrâneo encontram as que descem do céu no mesmo prado, como num piquenique cósmico, e trocam experiências.

O detalhe dramático mais significativo é que aqueles que viveram bem apenas por hábito social, sem sabedoria filosófica, frequentemente fazem escolhas ruins na próxima encarnação: seduzidos pelas aparências atraentes de certos modelos de vida, não leem as cláusulas miúdas que revelam as consequências. Já os que sofreram no subterrâneo tendem a ser mais cautelosos.

Tese Autoral — Prof. Israel Costa

A matemática platônica das penas (10 × 100 = 1000 anos) não é arbitrária: ela subverte a ideia de punição eterna ao afirmar que todo débito moral pode ser quitado. A eternidade da punição seria injusta porque implicaria punição desproporcional. Platão formula, assim, uma justiça cósmica proporcional muito antes dos debates modernos sobre proporcionalidade penal.

Para Refletir

  1. Platão rejeita penas eternas em favor de um sistema de compensação temporal proporcional. Em que medida esse modelo escatológico implica uma visão otimista do ser humano — de que toda falha moral é, em princípio, reparável?
  2. As almas que vinham do céu, por terem vivido bem apenas por hábito, escolhiam modelos de vida piores do que as que vinham do subterrâneo. Que lição ética Platão extrai daí sobre a diferença entre virtude habitual e virtude filosófica?
03

O Fuso da Necessidade e a Música das Esferas

Após o encontro no prado, as almas são conduzidas a uma luz que desce do céu — mais pura do que o arco-íris, segundo o texto —, e lá contemplam o cosmos como totalidade: o Fuso da Necessidade. Este instrumento de fiação cósmico é descrito como um conjunto de esferas concêntricas em rotação, cada uma contendo uma sirena que emite uma nota musical. O conjunto das oito notas forma a harmonia das esferas — imagem que Platão importa da cosmologia pitagórica e integra ao universo escatológico.

Junto ao Fuso, sentada no trono, está Ananke, deusa da Necessidade, e suas três filhas: as Moiras. Diferentemente da tradição popular, que as representa como velhas, aqui são três jovens de branco, com fitas no cabelo. A descrição é geograficamente precisa e filosoficamente carregada.

Cloto, a do presente, toca com a mão direita o anel externo, cantando e tecendo o presente. Átropos, a do futuro, toca com a esquerda o anel interno, cantando e tecendo o futuro. Láquesis, a do passado, ocupa o centro e maneja ambas as mãos alternando os dois anéis — ela tece e move tanto o presente quanto o futuro, por estar no centro do tempo.

Laquesis (a que canta o passado) ocupando o lugar central na arquitetura do tempo

A posição privilegiada de Láquesis — no centro, com ambas as mãos — não é acidental: em Platão, passado e reminiscência têm precedência epistêmica sobre presente e futuro. O passado é a fonte do conhecimento (anamnese), e Láquesis é sua guardiã cósmica.

Cloto, com a mão direita, fazia girar o anel externo; Átropos, com a esquerda, fazia o mesmo com o de dentro; Láquesis, com ambas as mãos, alternadamente fazia girar os dois.
Ananke — Ἀνάγκη · Necessidade / aquilo que não pode deixar de ser PLATÃO, A República, X, 617b–c (trad. M. H. Rocha Pereira)

Para Refletir

  1. A precedência filosófica do passado — expressa na posição central de Láquesis e na doutrina da anamnese — implica que o presente é sempre uma re-atualização do passado. Como essa tese se relaciona com a ideia de que o filósofo é aquele que mais recorda, e portanto mais sabe?
  2. A "música das esferas" integra elementos pitagóricos à escatologia platônica. Em que sentido a harmonia matemática do cosmos serve de fundamento para a ética: a beleza do universo pode ser argumento para a virtude?
04

A Escolha do Modelo de Vida: Catálogo das Metamorfoses

O sacerdote de Láquesis lança no chão, diante das almas reunidas, modelos de vida em número muito superior ao das almas presentes.

Catálogo das Metamorfoses
A Proclamação do Arauto: O profeta anuncia que a escolha é livre e que "a culpa é de quem escolhe".

Platão não especifica a forma, mas a metáfora do livro com capas atraentes e cláusulas miúdas captura bem a dinâmica. As almas sorteiam a ordem de escolha e, na sequência, cada uma seleciona livremente seu próximo modo de existência.

A escolha dos modelos de vida
"[...] depois [de haver colocado as almas em ordem e sorteado a sequência das escolhas, o sacerdote de Láquesis] jogou no chão, defronte de todas, modelos de vida, em número muito superior ao das almas ali presentes" (Platão, A República, 617d-e)

Antes da escolha, o sacerdote pronuncia a advertência central do mito: "A culpa é de quem escolhe; a divindade não tem culpa alguma." A escolha é irrevogável. Uma vez feita, não há retorno.

O catálogo das escolhas revela uma tipologia antropológica. A alma que vinha do céu e fora a primeira a escolher pegou a vida de grande tirano sem ler as entrelinhas — ela se tornaria devorador do próprio filho. Orfeu, que havia sido dilacerado pelas Mênades, escolheu nascer cisne para nunca mais nascer de mulher. Tamiras, o cantor que se gabou de superar as Musas e ficou cego, escolheu nascer rouxinol. Ajax, humilhado pela política que deu as armas de Aquiles a Odisseu, escolheu nascer leão — animal que carrega as próprias armas no corpo. Agamêmnon, assassinado pela esposa após dez anos de guerra, escolheu nascer águia para pairar acima das traições humanas. Atalanta, atleta extraordinária discriminada por ser mulher, escolheu nascer em corpo masculino. Tersites, o bobo do exército, escolheu nascer macaco.

A Escolha de Odisseu
Catálogo parcial das metamorfoses: as escolhas de Orfeu, Tamiras, Ajax, Agamêmnon, Atalanta, Tersites — e, por último, Odisseu (A República, X, 620a–c).

O padrão é uniforme: as almas escolhem segundo o trauma da vida anterior, não segundo a sabedoria filosófica. Er observa com tristeza e ironia o espetáculo — "ao mesmo tempo triste e risível" são suas palavras. A ausência de filosofia transforma a escolha em compulsão repetitiva.

Para Refletir

  1. Cada personagem do catálogo escolhe motivado por ressentimento, trauma ou desejo de vingança simbólica. Em que medida essa dinâmica antecipa a noção freudiana de compulsão à repetição? O que Platão diz que a filosofia poderia fazer contra essa tendência?
  2. Atalanta escolhe nascer em corpo masculino para escapar da discriminação. Como interpretar esse dado à luz das teorias contemporâneas de gênero: a escolha é lida como conformidade com a norma opressora ou como resistência a ela?
05

Odisseu e a Escolha Sábia: O Idiotes como Ideal

O último a escolher é a alma de Odisseu. Já todos haviam feito suas escolhas; os modelos que restavam eram os mais modestos e esquecidos. Odisseu demorou mais do que qualquer outro para decidir: percorreu os modelos disponíveis com paciência, leu cada um com atenção, recusou a glória, a fama e o poder. Por fim, escolheu a vida de um homem obscuro, apartado da política, sem renome — o que os gregos chamavam de idiotes.

O Daimon e o Fio da Vida
Odisseu, o último a escolher, procura pacientemente entre os modelos restantes e opta pela vida do homem obscuro — o idiotes — como a mais feliz (A República, X, 620c–d).

O termo merece atenção. Em grego, idiotes (ἰδιώτης) não tem a conotação pejorativa do português "idiota". Significa o homem que cuida de sua vida privada (idios), que não participa da vida pública, que cultiva sua singularidade sem concorrer por honra ou poder. A palavra idiossincrasia preserva essa raiz: o conjunto de traços peculiares, próprios, de uma pessoa.

Platão sugere que Odisseu chegou à escolha sábia pelo acúmulo de experiência — ele havia sofrido tudo: ciclopes, Circe, Cila e Caríbdis, a viagem ao Hades, as sereias, Calipso. Uma alma muito antiga, de vasta experiência. Mas a insinuação filosófica vai além: quem escolhesse segundo critérios de justiça, e não apenas de experiência, escolheria ainda melhor. O sofrimento pode ensinar; a filosofia antecipa o que o sofrimento só ensina depois de vivido.

A alma de Odisseu, que pela lembrança das fadigas passadas depusera toda a ambição, andou durante muito tempo à procura da vida de um homem particular, sem obrigações públicas, e a custo a encontrou, atirada por aí a um canto, desprezada pelos outros; ao vê-la, disse que teria feito a mesma escolha se lhe tivesse saído o primeiro número, e escolheu-a com prazer.
Idiotes — ἰδιώτης · o que vive sua vida privada / o particular PLATÃO, A República, X, 620c–d (trad. M. H. Rocha Pereira)

Para Refletir

  1. A escolha do idiotes por Odisseu pode ser lida como renúncia ao heroísmo ou como sua forma mais madura. Em que sentido a Odisseia inteira pode ser relida como "treino para a morte" que cura a ambição (philotimia) de Odisseu?
  2. Platão afirma que escolher com base na filosofia seria superior a escolher com base na experiência. No entanto, a maioria das pessoas não tem acesso à formação filosófica. Isso torna o projeto platônico elitista, ou há uma leitura democrática possível?
06

O Daimon: Guardião da Escolha, Necessidade e Liberdade

Após todas as almas terem escolhido seus modelos de vida, Láquesis ordena que cada uma seja acompanhada pelo daimon que ela mesma escolheu — pois ao escolher o modelo de vida, a alma escolheu também seu guardião. Cloto então entrelaça a alma, o modelo de vida e o daimon numa única linha torcida, tal como o fuso transforma o chumaço de algodão em cordão duplo. Átropos torna esse fio irrevogável, tecendo-o na trama do cosmos junto às demais vidas.

Cloto, sob a sua mão e sob o turbilhão do fuso,
ratificando o destino (moira) que havia escolhido.” República 620e–621a
"Cloto, sob a sua mão e sob o turbilhão do fuso, ratificando o destino (moira) que havia escolhido.” República 620e–621a

O termo daimon (δαίμων) ocupa uma posição intermediária entre deuses pessoais e forças impessoais. Em Ésquilo, daimons e deuses são listados juntos como potências divinas, mas o daimon distingue-se por não ter personalidade própria: ele é energia divina que precisa de uma pessoa para se completar. Ésquilo chega a chamá-lo de alastor — o que não esquece a maldição, o vingador de sangue que perpassa gerações (caso dos atridas, descendentes de Tântalo).

Sócrates revela a face positiva: seu próprio daimon nunca o mandava fazer algo — apenas o impedia de agir quando estava prestes a fazer o que não deveria. Uma voz interior negativa, proibitiva, que garante a coerência entre a escolha de vida e cada ação cotidiana.

A eudaimonia (εὐδαιμονία) — palavra que Aristóteles traduzirá por "felicidade" — significa literalmente "ter um bom daimon". Quando a pessoa vive em harmonia com seu daimon, quando as ações cotidianas correspondem ao modelo de vida escolhido, há uma eufonia interior. Quando há divergência, o daimon se torna kakodaimon — mau gênio, demônio, força obstaculizadora que faz tudo dar errado.

Tese Autoral — Prof. Israel Costa

Platão articula dois polos aparentemente contraditórios: o daimon como necessidade (força que compele a cumprir a escolha feita) e como liberdade (pois foi o próprio agente quem escolheu o modelo de vida). O filósofo Giorgio Agamben sintetiza essa tensão: "Esse Deus tão íntimo e pessoal é também aquilo que de mais impessoal existe em nós." O daimon é o DNA moral da escolha — impessoal como lei, mas radicalmente próprio como destino. Em Heráclito, a síntese aparece na frase: ēthos anthrōpōi daimōn" — o caráter do homem é seu daimon.

Depois de todas as almas terem escolhido as suas vidas, avançaram pela ordem do sorteio para Láquesis. Esta mandava acompanhar cada uma o gênio que ela própria escolhera para lhe servir de guarda durante a vida e cumprir a sua escolha.
Eudaimonia — εὐδαιμονία · ter um bom daimon / felicidade PLATÃO, A República, X, 620d–e (trad. M. H. Rocha Pereira)

Para Refletir

  1. Heráclito afirma que o ethos (caráter formado pelos hábitos) é o daimon do homem. Nessa leitura, o daimon surge ao longo da vida, não antes dela. Como conciliar essa visão com a de Platão, em que o daimon é atribuído antes do nascimento? As duas perspectivas são contraditórias ou complementares?
  2. A noção platônica de daimon ressurge em contextos modernos — o "gênio" dos artistas (Rousseau, Rilke), o "self" da psicologia jungiana, o "eu profundo" das tradições espirituais. Qual é o risco filosófico de transportar um conceito escatológico para uma psicologia secular?
07

O Deserto, o Rio Letes e o Nascimento

Após a atribuição dos daimons e a passagem pelo Portal da Necessidade, as almas atravessam um deserto escaldante, sem vegetação, sem água, sob calor exaustivo.

“E dirigiam-se para a planície do Esquecimento, através de um calor terrível e sufocante, desprovida de tudo quanto a terra produz.” (Platão, A República, 621a)

A travessia dura o dia inteiro. Ao entardecer chegam às margens do rio Letes — o rio do esquecimento.

Cada alma é obrigada a beber da água do Letes. A quantidade ingerida, porém, é variável: as sábias bebem apenas o necessário — um gole na palma da mão —, pois querem preservar a memória da escolha que fizeram. As imprudentes se debruçam sobre o rio e bebem em abundância, esquecendo tudo.

A meia-noite, um trovão e um tremor de terra varreram as almas para o alto como estrelas disparadas.

O renascimento
"Estando deitadas para repousar, meia-noite já passada, sobreveio trovoada com tremor de terra, sendo as almas num repente arrastadas em todas as direções para o alto, como estrelas em desfile, a fim de renascerem." (Platão, A República, 621b)

Er, que não bebia nem dormia, acordou à beira da própria pira funerária e começou a narrar.

A estrutura do esquecimento é, paradoxalmente, condição da liberdade: se lembrássemos da escolha pré-natal, nossa vida seria determinada pela consciência dessa escolha, não pelo exercício dela. O esquecimento cria a ilusão de que somos livres para improvisar — mas o daimon garante que a estrutura profunda da escolha se imponha por vias não conscientes.

O filósofo, contudo, nasce com saudade de lugares que nunca esteve. Guarda uma memória residual. É aquele que bebe pouco do Letes e por isso se sente estrangeiro no mundo, movido por um impulso de recordar o que a alma sabia antes de encarnar.

Para Refletir

  1. O esquecimento produzido pelo Letes é necessário para que a encarnação seja vivida como genuinamente livre. No entanto, o filósofo que bebe pouco e guarda memória residual tem vantagem ou desvantagem? A filosofia como prática de reminiscência (anamnese) é um caminho de libertação ou de desorientação existencial?
  2. Platão afirma que "morrer para o passado" — desfazer-se das experiências acumuladas e recomeçar a escolha do modelo de vida — é possível a qualquer momento. Em que sentido o mito de Er é um convite à transformação pessoal radical, e não apenas uma cosmologia post mortem?

As Três Moiras e a Arquitetura do Tempo

Moira Domínio Temporal Posição no Fuso Gesto Significado Filosófico
Cloto (Κλωθώ) Presente Anel externo (mão direita) Fiar e cantar o presente A existência enquanto acontece; o fio em formação
Átropos (Ἄτροπος) Futuro Anel interno (mão esquerda) Tornar irrevogável o futuro escolhido O que não pode ser desfeito; a consequência da escolha
Láquesis (Λάχεσις) Passado Centro (ambas as mãos) Mover alternadamente os dois anéis A memória como fundamento; a anamnese como conhecimento

Dois Polos do Conceito de Daimon

Aspecto Polo da Necessidade Polo da Liberdade
Origem Dado por Láquesis segundo o modelo de vida escolhido Escolhido indiretamente pelo próprio agente ao escolher o modelo de vida
Função Forçar o cumprimento da vida escolhida Garantir coerência entre escolha e ação cotidiana
Quando positivo Eudaimonia — harmonia entre agente e daimon Daimon de Sócrates: voz interior que impede o erro
Quando negativo Kakodaimonia — conflito entre agente e daimon Alastor (Ésquilo): a maldição familiar que exige sangue
Interpretação de Heráclito Ethos anthropo daimon — os hábitos formados livremente tornam-se o daimon; ele surge no fim, não antes

Síntese Integradora

O Mito de Er é o mito platônico da responsabilidade radical. Seu argumento central pode ser enunciado assim: antes de nascer, a alma escolheu livremente um modelo de vida; ao encarnar, esqueceu essa escolha — mas o daimon permanece como garante cósmico de que ela será cumprida. A vida que cada um leva não é arbitrária nem puramente determinada: é o desdobramento necessário de uma escolha livre, feita num tempo que a memória ordinária não alcança.

O mito articula quatro eixos que atravessam toda a filosofia platônica: (1) a doutrina da anamnese — o conhecimento é recordação; (2) a teoria da alma — ela é imortal e pré-existente; (3) a ética da responsabilidade — "a culpa é de quem escolhe"; (4) a crítica à poesia — Platão compete com Homero ao oferecer uma narrativa que não é fantasia, mas verdade filosófica sobre a condição humana.

A leitura de Agamben radicaliza o mito: o daimon não é apenas metáfora, mas estrutura ontológica. O mais íntimo e pessoal — aquilo que nos faz singulares — é ao mesmo tempo o mais impessoal: a necessidade que nos atravessa sem nos pertencer. É o que somos antes de decidir ser. E o projeto filosófico de toda uma vida é, talvez, aprender a viver em harmonia com essa força — tornando-nos, como Odisseu, capazes de escolher com alegria lúcida a vida modesta que o daimon já havia traçado.

Glossário Selecionado

TermoTransliteraçãoDefinição
ἈνάγκηAnankeNecessidade; o princípio cósmico que governa o inelutável. Mãe das Moiras no Mito de Er.
ΔαίμωνDaimonGênio, espírito intermediário entre deuses e homens; guardião que acompanha a alma para que cumpra a escolha de vida.
ΕὐδαιμονίαEudaimoniaFelicidade; literalmente "ter um bom daimon"; harmonia entre o agente e o seu daimon.
ἮθοςEthosCaráter; conjunto de hábitos que definem a identidade moral de uma pessoa. Para Heráclito, o daimon do homem.
ἸδιώτηςIdiotesO homem privado; aquele que não participa da vida pública e cuida de sua singularidade. Modelo de vida escolhido por Odisseu.
ΛήθηLetheEsquecimento; rio que as almas atravessam antes de encarnar, apagando a memória da escolha pré-natal.
ΜοῖραMoiraDestino, porção; as três filhas de Ananke — Cloto, Átropos e Láquesis — que tecem e cortam o fio de cada vida.
ΦιλοτιμίαPhilotimiaAmor à honra, à glória; o vício que Odisseu curou pela experiência e que o levou a escolher a vida obscura.

Referências

PLATÃO. A República. Tradução Maria Helena da Rocha Pereira. 9. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
PLATÃO. Fedro. Tradução do grego, apresentação e notas de Maria Cecília Gomes dos Reis. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2016.
PLATÃO. Teeteto. Tradução Adriana Manoela Nogueira e Marcelo Boeri. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.
PLATÃO. Timeu-Crítias. Tradução Rodolfo Lopes. Coimbra: ECH, 2011. (Coleção Autores gregos e latinos).

Leituras Complementares

AGAMBEN, Giorgio. O uso dos corpos. Tradução Selvino J. Assmann. São Paulo: Boitempo, 2017. [Capítulo sobre o daimon e a forma-de-vida.]
AGAMBEN, Giorgio. Gênio. In: AGAMBEN, G. Profanações. Tradução Selvino José Assmann. São Paulo: Boitempo, 2007. p. 11-20.
BURKERT, Walter. Religião grega na época clássica e arcaica. Tradução M. J. Simões Loureiro. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.
HOMERO. Ilíada. Tradução Frederico Lourenço. Lisboa: Livros Cotovia, 2005.
HOMERO. Odisseia. Tradução Frederico Lourenço. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.