O Mito dos Esféricos
Apresentação
O que é o amor? Essa pergunta, aparentemente simples, reuniu numa mesma noite os maiores espíritos de Atenas. O Banquete (ou Symposion) de Platão não é uma palestra — é uma competição de discursos em que cada convidado deve apresentar a sua melhor teoria sobre Eros. A ocasião é a festa de Agatão, jovem poeta trágico que acaba de vencer seu primeiro prêmio. Após a bebedeira da noite anterior, os amigos decidem substituir o vinho pela palavra: em vez de beber juntos (sympínein), vão discursar juntos — e assim nasce o conceito moderno de simpósio.
Nesta primeira parte, percorremos os quatro discursos iniciais: o romantismo heroico de Fedro, a prudência jurídica de Pausânias, a harmonia técnica de Erixímaco e — ponto alto da aula — a comédia cosmogônica de Aristófanes, que narra o mito dos esféricos: seres primordiais esféricos, cortados ao meio por Zeus, condenados a vagar pela Terra em busca de sua “cara metade”. O amor, nessa perspectiva, nasce de uma ferida — e curar-se é reencontrar a totalidade perdida.
O simpósio e os quatro primeiros oradores
O Banquete começa com um enquadramento narrativo peculiar: quem conta a história não esteve lá. Trata-se de um relato de segunda mão — alguém ouviu de alguém que esteve presente na festa de Agatão. Essa moldura não é casual: Platão sinaliza desde o início que estamos no domínio da memória reconstituída, da narrativa que preserva algo de vivo mas já passou pela mediação do tempo e da linguagem.
Agatão, o jovem poeta trágico que venceu o prêmio e oferece o banquete.
Os convidados decidem suspender a bebida e propor um tema: cada um discursará sobre Eros, o amor. Fedro, o jovem idealista que já conhecemos do diálogo homônimo, propõe o tema e fala primeiro. Seu discurso é o de um romântico heroico: “O amor é entre os deuses o mais antigo. E sendo o mais antigo, é para nós a causa dos maiores bens” (Banquete, 178b-c). O amor torna as pessoas virtuosas, capazes de sacrifício: Aquiles morre para vingar o amado Pátroclo; Alceste morre no lugar do marido Admeto. Amar melhora o caráter.
Fedro: o romantismo heroico — “quem ama se torna mais virtuoso”.
Pausânias, homem prático e jurista, responde com uma distinção decisiva: existem duas Afrodites, logo dois amores. A Afrodite Urânia (celeste), nascida do sêmen de Urano sem mãe, preside o amor decente — aquele que visa a alma, o aprimoramento mútuo. A Afrodite Pandêmia (popular), filha de Zeus e Dione, preside o amor indecente — aquele que visa a carne, a satisfação imediata. Pausânias joga um balde de água fria no idealismo de Fedro: nem todo amor é belo; depende de como se ama.
A prudência jurídica de Pausânias
Erixímaco, o médico, amplia a questão para além do humano: o amor é uma harmonia de contrários, como a tensão entre o grave e o agudo numa lira ou entre o retesado e o frouxo num arco. A arte da medicina é, no fundo, a arte do amor — equilibrar humores, harmonizar opostos, restaurar a saúde. É uma visão técnica, quase reducionista: “amor é só química”, diria um moderno.
Erixímaco: o amor como harmonia de arco e lira — equilíbrio de contrários.
Para refletir
- Cada um dos três primeiros oradores projeta sobre o amor a sua própria perspectiva profissional: o romântico, o jurista, o médico. Até que ponto nossa concepção de amor é moldada pela nossa atividade e formação?
- A distinção de Pausânias entre Afrodite Urânia e Pandêmia sobrevive até hoje? Que critérios usamos para separar o amor “decente” do “indecente”?
Os seres esféricos: anatomia e hýbris
Aristófanes, o grande comediógrafo ateniense, deveria ter sido o terceiro a falar, mas foi atrapalhado por uma crise de soluço — detalhe cômico que Platão registra com precisão, incluindo a receita de Erixímaco: “segura o fôlego; se não parar, gargareja com água; se ainda persistir, coça o nariz e espirra”. Quando finalmente toma a palavra, Aristófanes promete uma “iniciação”: “Tentarei iniciar-vos em seu poder, e vós o ensinareis aos outros; mas é preciso, primeiro, aprenderdes a natureza humana e as suas vicissitudes” (Banquete, 189d).
Aristófanes: o comediante que conta a história mais séria sobre o amor.
Em sua origem, narra Aristófanes, os seres humanos eram esferas. Tinham quatro braços, quatro pernas, dois rostos opostos numa mesma cabeça, e locomoviam-se girando como acrobatas — “fazendo as pernas girarem para o alto” (Banquete, 190a).
A locomoção monstruosa dos humanos esféricos sobre a terra.
Existiam em três gêneros, segundo sua ascendência cósmica: os filhos do Sol (dois sexos masculinos), os filhos da Terra (dois sexos femininos) e os filhos da Lua (um masculino e um feminino — os andróginos). Esses seres não tocavam o solo: transitavam “como meteoros” — metá (acima) + aeírō (erguer) —, julgando-se planetas que orbitavam a Terra e a fecundavam como Urano fecunda Gaia.Os três gêneros esféricos: filhos do Sol, da Terra e da Lua.
A hýbris (desmedida) dos esféricos não era apenas força bruta: era a ilusão de serem deuses. Por serem esféricos como os planetas e por não tocarem o chão, achavam-se da mesma natureza que os seres celestes. Aristófanes compara-os a Efialtes e Otos — os gêmeos gigantes, filhos de Poseidon, cujos nomes revelam o padrão do animal predatório: Otos (ōtos, “ouvir”) percebe um ruído e Efialtes (ephiáltēs, “saltar sobre”) ataca — como um gato que ouve o vento na persiana e se lança sobre a cortina imaginando uma presa. Assim os esféricos fizeram: ouviram algo no Olimpo, empilharam-se uns sobre os outros e tentaram escalar o céu — uma torre de Babel humana.
Os esféricos empilhados numa “torre de Babel humana”, tentando escalar o Olimpo.
Para refletir
- Os esféricos “não tinham o pé no chão” — expressão que na Grécia significava viver na fantasia. A hýbris contemporânea assume formas semelhantes? Que “esferas” modernas julgam-se acima da condição humana?
- A imagem de seres que se empilham para chegar ao céu evoca a torre de Babel. Que relação existe entre a ambição coletiva desmedida e a punição pela fragmentação?
O corte de Zeus e o nascimento do sýmbolon
Zeus enfrenta uma aporia (a- + póros: “sem saída”). Não pode exterminar os esféricos — são filhos de deuses e fonte de honras e sacrifícios —, mas também não pode tolerar sua impiedade. A solução é um corte: “Vou cortá-los em dois a cada um; assim ficarão mais fracos e, ao mesmo tempo, mais úteis para nós, por se ter multiplicado o seu número” (Banquete, 190d). E acrescenta uma ameaça: “Se ainda assim continuarem a ser insolentes, cortá-los-ei novamente em dois, e terão de andar a pular sobre uma só perna.”
O corte é executado por Ares e reparado por Apolo: este pega cada metade como um saco, puxa a pele sobre a ferida, amarra-a num nó — o umbigo — e vira a cabeça de modo que o rosto olhe para a cicatriz, para que “ao contemplar o corte, o homem fosse mais moderado”. As pernas e os braços são reposicionados na direção do umbigo.
"[...] e a Apolo ordenava que voltasse o rosto e a metade do pescoço para o lado do corte, a fim de que, contemplando a sua própria divisão, o homem fosse mais moderado, e o encarregava de curar o resto. Apolo, então, voltava o rosto e, puxando de toda parte a pele sobre o que agora se chama ventre, como as bolsas que se fecham, ao meio do ventre fazia uma única abertura e a amarrava, o que agora chamamos de umbigo." — Platão, O Banquete, 190e-191a.
O resultado é a figura humana que conhecemos — um ser com costas desprotegidas, que não consegue coçá-las (os esféricos, sem costas, não tinham esse problema), e que se parece com um linguado: olhos, boca e órgãos de um lado só.
O ser linguado: nós, humanos, somos como peixes-linguados — olhos de um lado só, costas desprotegidas, metades em busca de complemento.
O sýmbolon: moeda partida cujas metades se reconhecem ao serem reunidas — a origem da “cara metade”.
As metades passaram a procurar desesperadamente umas às outras. Quando se encontravam, abraçavam-se e não queriam mais se separar — morriam de inanição, recusando qualquer outra atividade que não fosse a tentativa de se fundir novamente. Já não guerreavam, já não escalavam o céu: o corte transformou guerreiros em amantes. O amor, portanto, nasce de uma ferida. “Eu te amo” não significa “eu te desejo”: significa “eu me amo em você — você é o pedaço de mim que perdi, e sem você não sou inteiro”.
O corte de Zeus é um corte epistemológico. A esfera era vulnerável, mas não sentia sua vulnerabilidade — não tocava o solo. Depois de cortada, com os pés no chão, ela passa a sentir a sua condição. A palavra epistḗmē (conhecimento) está ligada a solo: conhecer é ter os pés firmados na terra. O momento em que o ser humano deixa de ser “meteoro” e toca o chão é o momento em que a verdade se torna acessível — não pela arrogância do voo, mas pela humildade da queda.
Para refletir
- Se somos “símbolos” — metades de uma totalidade perdida —, a busca pelo outro é uma necessidade ontológica ou uma ilusão cômica? Aristófanes está falando a sério ou fazendo troça?
- O amor que nasce da ferida é necessariamente possessivo? Em que ponto o desejo de “completar-se no outro” se transforma em posse e destruição?
Hefesto, a solda e o desejo de individuação
Aristófanes satiriza o desejo de reunificação com uma cena memorável: imagina Hefesto — o deus ferreiro, senhor da forja e da solda — aproximando-se de um casal abraçado e perguntando: “Que quereis? Unir-vos no mesmo lugar o mais possível, de modo a não vos separardes nem de noite nem de dia? Pois estou pronto a fundir-vos e soldar-vos num só” (Banquete, 192d-e). A menção a Hefesto não é casual. O deus que soldou Hera à cadeira como vingança contra a mãe que o rejeitou, que prendeu Afrodite e Ares na cama com uma rede invisível — esse deus da fusão indissolúvel é invocado para perguntar: vocês realmente querem isso?
A resposta apontada é o mito de Hermafrodito: filho de Hermes e Afrodite (nascido após Hermes declarar que aceitaria uma rede “três vezes mais forte” para ficar junto da deusa dourada), o jovem Hermafrodito foi agarrado pela ninfa Salmácis, que pediu aos deuses que nunca mais os separassem. Os corpos se fundiram literalmente — e o resultado não foi plenitude, mas deformação. O desejo de individuação, levado ao extremo da fusão literal, produz monstros, não deuses.
A comédia de Aristófanes contém, portanto, um aviso. O amor cura — devolve ao ser humano o sentimento de inteireza que perdeu com o corte —, mas é uma “cura estranha”, porque gera também ciúme, posse e ódio. Quem acredita que a felicidade depende exclusivamente do outro transforma o amor em armadilha: “eu me amo em você” pode significar “você me deve a minha felicidade”. Os discursos que se seguirão — especialmente o de Sócrates, na próxima aula — mostrarão que o caminho do amor é mais complexo do que a mera reunião das metades.
Para refletir
- Jung desenvolve o conceito de “individuação” como a integração dos opostos internos. Em que medida o mito dos esféricos antecipa essa ideia — e em que medida a distorce?
- Se Zeus ameaça um segundo corte caso a “insolência” persista, o que representaria, na vida contemporânea, esse “segundo corte” — a fragmentação última da identidade?
Quadros Comparativos
| Orador | Profissão / perfil | Tese sobre Eros | Tipo de amor |
|---|---|---|---|
| Fedro | Jovem aristocrata idealista | O amor é o deus mais antigo e causa dos maiores bens | Heroico-sacrificial |
| Pausânias | Advogado, homem prático | Dois amores: Urânia (decente, da alma) e Pandêmia (indecente, da carne) | Jurídico-moral |
| Erixímaco | Médico | O amor é harmonia de contrários, como arco e lira | Técnico-científico |
| Aristófanes | Comediógrafo | O amor é cura de uma fratura ontológica: busca da metade perdida | Cômico-existencial |
| Aspecto | Antes do corte (Esféricos) | Depois do corte (Humanos) |
|---|---|---|
| Forma | Esfera com 4 braços, 4 pernas, 2 rostos | Metade: 2 braços, 2 pernas, 1 rosto |
| Locomoção | Girando como acrobatas (“meteoros”) | Eretos, com os pés no chão |
| Autoimagem | Planetas-deuses orbitando a Terra | Metades simbólicas em busca do complemento |
| Relação com o outro | Nenhuma necessidade; reprodução por fecundação da Terra | Necessidade vital; amor como busca de inteireza |
| Relação com os deuses | Hýbris: tentativa de escalar o Olimpo | Moderação: contemplação do umbigo (cicatriz) |
Síntese Integradora
O mito dos esféricos é uma comédia com peso ontológico. Aristófanes — o piadista que soluça, espirra e ridiculiza — conta a história mais tocante do Banquete: a de que somos seres cortados, metades em busca de totalidade, símbolos que só fazem sentido quando reunidos. O amor, nessa perspectiva, não é capricho nem hormônio: é a resposta a uma ferida cósmica, a tentativa de curar o corte que nos fez humanos.
Mas a comédia é também um aviso. O desejo de fusão total — a solda de Hefesto, a carne de Salmácis grudada em Hermafrodito — não produz deuses, produz monstros. O amor que cura é também o amor que aprisiona, que transforma o outro em instrumento da minha completude. Aristófanes brinca com isso sabendo que os discursos seguintes — especialmente o de Sócrates, via Diotima — proporão uma saída: o amor não como retorno à esfera perdida, mas como escada ascendente em direção ao Belo em si.
Na próxima aula, ouviremos os três discursos finais do Banquete: Agatão, Sócrates (com o mito de Poros e Penía) e a irrupção bêbada de Alcibíades — que provará, com o próprio corpo, que a paixão real destrói qualquer teoria.
Glossário
| Termo (grego) | Definição conforme o professor |
|---|---|
| Andrógino (ἀνδρόγυνος) | O ser esférico filho da Lua, que reunia em si um sexo masculino e um feminino. Após o corte, origina os casais homem-mulher. |
| Aporia (ἀπορία) | Ausência de saída, de recurso (a- + póros). O impasse de Zeus diante dos esféricos: não pode matá-los nem tolerá-los. |
| Efialtes / Otos | Gêmeos gigantes, filhos de Poseidon. Ephiáltēs = “saltar sobre”; Ōtos = “ouvir”. Padrão do animal que ataca o ruído. |
| Epistḗmē (ἐπιστήμη) | Conhecimento. Ligada a “solo”: conhecer é ter os pés na terra. O corte de Zeus é um corte epistemológico. |
| Hýbris (ὕβρις) | Desmedida, arrogância. A pretensão dos esféricos de se igualarem aos deuses e escalarem o Olimpo. |
| Meteoro (μετέωρος) | De metá (acima) + aeírō (erguer). Quem vive “no alto”, sem o pé no chão — expressão grega para quem vive na fantasia. |
| Sympósion (συμπόσιον) | “Beber junto” (sýn + pínein). Transformado por Platão em reunião de discursos sobre um mesmo tema. |
| Sýmbolon (σύμβολον) | Moeda partida; cada portador leva uma metade. O ser humano como metade simbólica de uma totalidade perdida. |
Referências
Leituras Complementares
Sobre o Banquete: A introdução de José Cavalcante de Souza à tradução da coleção Os Pensadores (Nova Cultural) é acessível e situa cada discurso no contexto dramático e filosófico. Para uma leitura mais avançada, Leo Strauss (On Plato’s Symposium) oferece uma análise esotérica que revela camadas ocultas em cada discurso.
Sobre o homem como ser simbólico: Ernst Cassirer (Ensaio sobre o Homem) desenvolve a tese de que o ser humano é essencialmente um animal symbolicum — aquele que precisa unir sensível e inteligível para dar sentido ao mundo. A conexão com o sýmbolon de Aristófanes é direta.