A ética da responsabilidade
Hans Jonas (1903-1993), em O Princípio Responsabilidade, postula uma ética da "responsabilidade metafísica" (2006, p. 229) que radicaliza e eleva ao nível filosófico um tipo de ética que teve a sua aparição no final do milênio anterior e se encontra fortemente imbricada com o problema da técnica. Com efeito, o século XX viu surgir uma ética da responsabilidade humanística como resposta à pergunta: Por que o ser humano deve existir?
Tal pergunta se justifica pelo fato de que a bomba atômica de urânio lançada sobre a cidade de Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, assinalou que a responsabilidade pela existência de entes humanos deixou de ser um problema de Deus — como entre os deístas franceses do século XVIII — para ser um problema do próprio homem, já que suas novas tecnologias passaram a poder extirpar a própria existência humana. Por certo, verifica-se que, no XVIII francês, personagens deístas, como o Vigário de Sabóia, apesar de se escandalizarem com o fato de que os homens fossem os verdadeiros responsáveis pelos males que eles mesmos produziam contra si, pareciam aliviarem-se com a ideia de que, apesar de tudo, a providência divina não permitiria que os homens extinguissem a sua própria espécie. O que Hans Jonas insinua acerca dessa ideia de que Deus garantirá a preservação da espécie humana mantendo o homem afastado das condições da possibilidade da autodestruição é que ela não tem mais lugar na atualidade, pois a civilização tecnológica deixou claro que o homem pode, sim, destruir a sua própria espécie.
Além de uma ética da responsabilidade humanística, o século XX também viu surgir uma ética da responsabilidade ambiental como resposta à pergunta: Por que o ser que conhecemos como meio ambiente deve ser preservado? Essa pergunta teve a sua justificativa retirada de adventos como aquecimento global, chuvas ácidas e destruição da camada de ozônio, patenteados na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, em junho de 1992, a qual assinalou mais esse passo autodestrutivo da civilização tecnológica.
Percebendo uma linha de continuidade desse processo de crescente responsabilidade que o homem passou a carregar em razão do poder conferido pela tecnologia, Hans Jonas operou uma redução fenomenológica sobre as expressões ser humano e ser da natureza, isto é, colocou os predicativos do ser entre parênteses para indagar do resíduo fenomenológico, ou seja, do ser em si mesmo, perguntando, afinal, Por que o ser deve existir em vez do nada?
Ao situar assim na esfera da ética uma pergunta que tradicionalmente pertencia à esfera ontológica — Por que há ser em vez de nada? — e procurar respondê-la, Hans Jonas termina por justificar tanto a sua ética da responsabilidade metafísica quanto as éticas da responsabilidade que o antecederam, na medida em que sua resposta oferece uma base filosófica para o próprio conceito de responsabilidade, o qual, em sua obra, aparece menos como uma imputação do que como uma previsão. Para Jonas, não se trata de ser responsável pelo que se fez, uma vez que tal responsabilidade diz respeito ao passado, ao mal-feito dos registros históricos, e sim de ser responsável pela ação que diz respeito ao futuro, ao mal-feito no tempo das poéticas distópicas.
Além da previsibilidade, outro elemento desse conceito de responsabilidade é a antropocentricidade. Para Hans Jonas, o homem deve ser uma espécie de Imago Dei [imagem de Deus] que, ao contemplar o mal da não existência, faz como o Javé da passagem bíblica do Gênesis 1:31, que, contemplando a criação, viu que tudo era muito bom/belo. A ideia de responsabilidade tem, portanto, algo a ver com a preservação do patrimônio ontológico, atualmente ameaçado pela civilização tecnológica. Considerando que, ontologicamente, o homem faz parte desse patrimônio enquanto único ser capaz de responsabilidade no sentido de que esta é, para um humano, o que é a quadratura para um quadrado, a ética da responsabilidade consiste, em última instância, em preservar-se enquanto ser humano, ou seja, enquanto ser ameaçado de extinção pelo abandono da sua qualidade essencial de ser responsável. Em suma, o homem é responsável por sua própria responsabilidade.
Tais justificativas resultam em um programa ético de ação que envolve uma ciência da previsão hipotética, uma futurologia comparativa cuja finalidade é, por assim dizer, colocar freios em Prometeu; criar advertências que possam desacelerar a corrida violenta oriunda do desacorrentamento que a ciência moderna operou sobre as forças do progresso técnico. Para essa futurologia, exige-se uma Heuristik der Furcht [Heurística do Temor], ou seja, uma invenção de medos estimulados pela imaginação de cenários apocalípticos resultantes de condutas presentes:
O medo que faz parte da responsabilidade não é aquele que aconselha a não agir, mas aquele que nos convida a agir [...]. A responsabilidade é o cuidado reconhecido como obrigação em relação a um outro ser, que se torna 'preocupação' quando há uma ameaça à sua vulnerabilidade. Mas o medo está presente na questão original, com a qual podemos imaginar que se inicie qualquer responsabilidade ativa: o que pode acontecer a ele, se eu não assumir a responsabilidade por ele? Quanto mais obscura a resposta, maior se delineia a responsabilidade. Quanto mais no futuro longínquo situa-se aquilo que se teme, quanto mais distante do nosso bem-estar ou mal-estar, quanto menos familiar for o seu gênero, mais necessitam ser diligentemente mobilizadas a lucidez da imaginação e a sensibilidade dos sentidos. Torna-se necessária uma heurística do medo capaz de investigar, que não só descubra e represente o novo objeto enquanto tal, mas que tome conhecimento do interesse moral particular, ao ser interpelado pelo objeto, algo que jamais teria ocorrido antes. A teoria da ética precisa tanto da representação do mal quanto da representação do bem, e mais ainda quando este último se tornou tão borrado ao nosso olhar, necessitando ser ameaçado pela antevisão de novos males, para ganhar alguma nitidez. Nessa situação, que me parece aquela que estamos vivendo, o esforço consciente para assumir um medo desinteressado, no qual junto com o mal apareça o bem a ser defendido, junto com o infortúnio apareça uma salvação que não faça exigências demasiadas, o medo se torna a primeira obrigação preliminar de uma ética da responsabilidade histórica (JONAS, 2006, p. 351-352, grifo nosso).
Nesse ponto, vale citar a interpretação apocalíptica que Michel Serres faz do quadro Duelo com Mocas, de Goya:
Quem vai morrer? — perguntamo-nos. Quem vai ganhar? — pensam eles e dizemos nós muitas vezes. Apostemos. Apostem no da direita, nós apostamos no da esquerda. Que o desfecho seja duvidoso, decorre da dupla natureza dos dois inimigos: há apenas dois contendores, que a vitória sem dúvida dividirá. Mas, numa terceira posição, exterior a essa luta, reparamos num terceiro lugar, o pântano onde a luta se afunda. Porque aqui, assaltados pela mesma dúvida, os apostadores correm todos o risco de perder, tal como os lutadores, por ser muito provável que a terra absorva estes últimos antes que eles e os jogadores possam ter arrumado as suas contas (SERRES, 1994, p. 11).
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Referências
O HOMEM (MAN by Steve Cutts). Animação criada em Flash e After Effects olhando o relacionamento do homem com o mundo natural. [S. l.: s. n.], 10 jul. 2013. 1 vídeo (ca 4 min), color, en., s/leg., son. Publicado pelo canal EndTimesHD. Música: In the Hall of the Mountain King, Suite N. 1, Op. 46, de Edvard Grieg. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RbpL5xGCXx8. Acesso em: 19 jul. 2021.
JONAS, Hans. O Princípio Responsabilidade: Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Tradução Marijane Lisboa; Luiz Barros Montez. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.
MENDOZA, Alonso de. Duelo com Mocas, de Francisco de Goya (Fuendetodos, 30 mar. 1746 - Bordéus, 16 abr. 1828), criação: 1820-1823. Técnica: Óleo al secco (sobre a superfície de reboco da parede). Orientação: Retrato. Tamanho: 261 x 125 cm. Depósito: P000758 - Museo del Prado. 5 fev. 2019. 1 fotografia, color., Altura: 892 pixels. Largura: 1873 pixels. 96 dpi. 24 BIT RGB. 1.6MB. Formato JPG. Permissão: domínio público. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Duelo_com_mocas#/media/Ficheiro:Duelo_a_garrotazos,_por_Goya.jpg. Acesso em: 11 jul. 2021.
SERRES, Michel. O Contrato Natural. Tradução Serafim Ferreira. Lisboa: Instituto Piaget, 1994.
COSTA, Israel Alexandria. Ética, lei e cuidado: estudos filosóficos acerca da plenitude da ação humana. Pirassununga, SP: Sdmarini, 2021. p. 81-86. [Fonte desta página.]
Atividade(s)
1) Atividade dissertativa básica — 2.2.3 A ética da responsabilidade
2) De aprofundamento: Assista à animação O Homem, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=RbpL5xGCXx8, e relacione-a com os conceitos da ética da responsabilidade, de Hans Jonas.