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O conceitualismo socrático

Sócrates, dirigindo-se a um dos seus interlocutores, confessa: "Tem em mente tudo aquilo que é ser parteira[1] e compreenderás facilmente o que quero" (Platão, 2010, p. 200, grifo nosso). Tal confissão abriga uma teoria gnosiológica que tem por base a noção de conceito enquanto pensamento capaz de assumir a forma de discurso lógico, daí a comparação entre o conceito e a célula-ovo destinada a fazer o percurso que vai do útero do pensamento à luz do discurso público, contexto no qual a maiêutica — enquanto intenção socrática de partejar conhecimentos — assume sua significação. O desejo implícito nessa intenção é o de que aquilo que vem à luz através da conversação com o interlocutor seja resultante de uma concepção, e não de uma falsa gravidez, ou seja, de uma opinião dogmática. É que, enquanto o conceito é algo que se gesta ativamente, para terminar aparecendo sob a forma de um discurso consistente, que revela a harmonia e a saúde lógica de um indivíduo bem ordenado e consequente, a opinião dogmática é algo inconsistente que, quando aparece sob a forma de discurso, revela a desarmonia e a doença lógica da desordem e da inconsequência. Enquanto forma de conhecimento que privilegia a consistência, a racionalidade científica tem para com o conceitualismo socrático um débito cuja fonte está na lição de que todo pensamento que se pretenda consistente deve poder se manifestar em discurso conforme as leis da lógica.

Notas

[1] Diferentemente das cosmovisões em que apenas mulheres podem engravidar/conceber, gestar e parir, a cosmovisão grega incorporava a noção de gravidez masculina. Zeus, de cuja cabeça nascera Atena e de cuja coxa nascera Dioniso é exemplo disso. Sócrates absorve essa cosmovisão para supor que os cidadãos de Atenas tinham a capacidade de usar a cabeça para conceber, gestar e dar à luz a seres vivos chamados logos. Assim como o Prometeu (em algumas versões, o Hermes) ajudou a curar a cefaleia de Zeus, abrindo a cabeça do deus para que a Atena alí concebida e gestada saisse gritando, Sócrates ajudava a curar a cefaleia do seu interlocutor como um parteiro ajuda uma parturiente num trabalho de parto.

Na maioria das vezes, essa obstetrícia — que ganhou o nome técnico de maiêutica — ajudava a colocar para fora nada além de um "ovo de vento", um "ovo cego" sem espírito e sem vida a murchar e secar à luz do sol. Algumas vezes, porém, como no caso de Teeteto — "são dores de parto, meu caro Teeteto. Não estás vazio; algo em tua alma deseja vir à luz" (Platão, Teeteto, 148e 6-7) —, nascia da cabeça um logos, uma forma de vida com capacidade de crescer, de se reproduzir e até de alimentar os outros com sua "carne". No Fedro, Sócrates sugere que, assim como um boi nasce, cresce se reproduz e até pode ser desmembrado por um hábil açougueiro com intuito de alimentar o corpo, uma forma de vida logoica pode crescer, dar origem a outras formas logoicas e até ser desmembrada por um dialético com o intuito de alimentar o espírito. Aqui entra-se no tema do "nascer em espírito" — que virá a ser explorado pelo cristianismo como no versículo "O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito" (João 3:6) — e que está ligado ao tema do "nascer de novo"/"nascer do alto", que o autor do Emílio ou Da Educação irá recuperar no XVIII francês como parte essencial do seu projeto ético-deontológico ao escrever "Nascemos, por assim dizer, duas vezes: uma para existir, outra para viver" (Rousseau, 1999, p. 271): é que, em certa altura de sua educação, Emílio percebe que é uma phyton ouranion (planta celeste) (v. Platão, Timeu, 90a) e nasce de novo e do alto como planta "periagojizada" e "re-enraizada" no bem solar.

Reconduzindo essa reflexão sobre o tema do segundo nascimento ao projeto socrático-conceitualista, vê-se Sócrates declarar que "uma vida não examinada não merece ser vivida por um ser humano" (Platão, Apologia de Sócrates, 38a) e isso significa que, por meio de uma maiêutica aliada ao conhecimento de si, Sócrates pretendia que os cidadãos atenienses nascessem de novo e em espírito como ánthropos, na medida em que ánthropos significa exatamente "aquele que examina o que viu" — "visto que ele examina [ana-thrēi] o que viu [ha ópōpen], por isso é chamado ánthropos" (Platão, Crátilo, 399c).

Essa intuição de que a vida humana, enquanto ánthropos, é um logos que a alma concebe, gera e dá à luz em um dado momento de sua existência foi ricamente ilustrada na poética homérica, destacadamente na passagem que abrange os versos 428 a 466 da Odisseia, Canto XIX, Livro 19, em que o poeta narra a caçada e o ferimento do jovem Odisseu no Parnaso. Homero, nos versos 446-450, diz que "Odisseu foi o primeiro a investir, erguendo a longa lança na mão robusta, ardendo em desejo de feri-lo. Mas o javali, antecipando-se, atacou-o acima do joelho e, num golpe oblíquo com a presa, rasgou-lhe muita carne, mas não chegou a atingir o osso do mortal." Logo em seguida (v. 451-454), Odisseu, mesmo sangrando e sentindo a dor excruciante que dilacerou a sua juventude cega, não recua. Ele examina a situação, ataca, perfura o ombro direito da besta e a mata. Essa ferida aberta na coxa e esse exame que termina com a morte do javali evoca o tema da gravidez masculina e do nascimento de um ánthropos. Odisseu é um nome que vem do verbo odýssomai que significa "sofrer e inflingir dor". Com efeito, Odisseu sofre a dor de uma coxa rasgada da qual vêm a luz um ánthropos que, ao examinar o que viu, inflige dor àquele que causou dor.

Quando articulamos o episódio da caçada no Parnaso com o Sócrates partejador e a alegoria da caverna, o interior da coxa de Odisseu e o interior ctônico onde estava o javali — "Lá, numa brenha densa, jazia um grande javali; a ela não a atravessava a força dos ventos úmidos ao soprar, nem o sol resplandecente a atingia com os seus raios, nem a chuva a trespassava de lado a lado, de tal modo era densa; e nela havia uma espessa e abundante camada de folhas secas." (Odisseia, XIX, 439-443) — evoca a imagem da caverna subterrânea e escura de onde sai, sangrando com o pathos causado por um Sócrates-Javali periagógico/anagógico, um ánthropos cuja natureza é logoica. De fato, o homem Odisseu que conhecemos hoje não está aí de unha, roupa e chapéu, mas em letras, sílabas e frases. O ánthropos Odisseu é um ser espiritual, um "ser letral" — como diria Manuel de Barros:

Eu sou dois seres.
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
É fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades frases.
(Barros, 2004, p. 45)

Esse homem nasce não no momento em que a criança é expulsa do ventre feminino, mas no momento da ação e da palavra que, em harmonia, retratam Odisseu como um heroi. Arendt (2016, p. 189) atestará, em seu livro A condição humana que, "com a palavra e a ação inserimo-nos no mundo humano, e esta inserção é como um segundo nascimento, no qual confirmamos e assumimos o fato nu de nosso original aparecimento físico" e Kafka ilustrará, em seu conto Um relatório para uma academia que o animal só encontra a saída humana através da palavra.

Odisseu é, por assim dizer, um homem-livro. Uma alma que habita um corpo de letras a sugerir a possibilidade mágica de uma horcrux, de uma transferência de alma para um objeto-livro. Algo que evoca ideia de exumação quando se abre a Odisseia para lê-la.

Imagens
Encontro com Autólico
Odisseu como um homem-livro
Encontro com Autólico Odisseu como um homem-livro

Referências

COSTA, Israel Alexandria. O conceitualismo socrático. Arapiraca, AL: Grupo de Pesquisa Gnosiologia, Ética e Informação / CNPq / Ufal - Projeto Web Filosofia, 2021. Disponível em: https://www.gpgeinfo.org/p/scrtscnct.html. Acesso em: 7 maio 2021.
PLATÃO. Teeteto. Tradução Adriana Manoela Nogueira; Marcelo Boeri. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.
PLATÃO. Fedro ou Da Beleza. Tradução e notas de Pinharanda Gomes. 6. ed. Lisboa: Guimarães Editores, 2000.
PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução Jaime Bruna et al. 5. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991.
SOUZA, Luciano Ferreira de. Platão: Crátilo, estudo e tradução. 200 f. Dissertação (Mestrado em Letras) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Universidade de São Paulo. São Paulo, 2010. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8143/tde-14062011-133520/publico/2010_LucianoFerreiradeSouza.pdf. Acesso em: 27 abr. 2014.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou Da Educação [1762]. Tradução Roberto Leal Ferreira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
BARROS, Manoel de. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Record, 2004.
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2016.
KAFKA, Franz. Um relatório para uma academia. In: POE, E. A. (org.). Histórias Fantásticas. Tradução Modesto Carone. São Paulo: Ática, 1999. p. 101-12.
OVÍDIO. Metamorfoses. Tradução Vera Lucia Leitão Magyar. São Paulo: Madras, 2003.
HOMERO. Ilíada. Tradução Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin-Companhia, 2013.
HOMERO. Odisseia. Tradução Frederico Lourenço. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Atividade(s):

1) 405/pl/fc_s01