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A epokhé pirrônica

Segundo Pirro de Élis (ca 360 a.C.- ca 270), o filósofo fundador do ceticismo — ou investigacionismo, posto que sképsis se traduz por investigação — a via privilegiada para a ataraxia é a εποχη [epokhé], ou seja, a suspensão do juízo.

O pressuposto básico dessa tese é de que o trabalho de viver dando adjetivos e rótulos às coisas e às pessoas é perturbador e visto que julgar é adjetivar, rotular e, muito frequentemente, dogmatizar, a ação que resiste a esse impulso humano de julgamento é benfazeja na medida em que o homem que se habitua a colocar entre parênteses os adjetivos com que se costuma prender coisas e pessoas constrói para si uma vida menos aprisionada, mais livre, mais contemplativa e, portanto, menos perturbadora do que a vida ativa de que dão exemplos os tagarelas precipitados e presunçosos que se apressam em julgar para viverem presos em seus próprios dogmas.

Para Pirro, a união entre tagarelice, precipitação e presunção costuma ser nefasta e, normalmente, está aliada à prática de julgar e de dogmatizar. Essa é a razão pela qual alguns costumam confundir a proposta pirrônica da epokhé com uma proposta de afasia [ἀφασία, a+fasia: ausência de fala], contudo essas duas coisas parecem-nos bem diferentes entre si, pois falar não é sinônimo de julgar e, conforme Laêrtios (1988, p. 268), Pirro

mantinha sempre a compostura, de tal maneira que, mesmo quando alguém o deixava no meio do discurso, ele terminava o que tinha a dizer embora fosse a única pessoa restante.

No âmbito da perspectiva pirronista, além da ataraxia, o caminho da epokhé também conduz à verdade, pois a suspensão do juízo aparece aí como um exercício da dúvida e esta é considerada pelos pirrônicos como o ponto de partida para a investigação em busca da verdade [zétesis]. Com efeito, segundo essa doutrina, os querelantes que creem já ter encontrado a verdade não apenas vivem perturbados com suas diafonias [controvérsias], como não investigam mais, não produzem conhecimento algum. E o pior é que as crenças de tais disputantes costumam ser ambas infundadas, pois os diferentes argumentos pelos quais eles imaginam justificar suas crenças são equipolentes, isto é, são igualmente persuasivos, sendo realmente impossível decidir por um deles.

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Referências

LAÊRTIOS, Diôgenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução Mário da Gama Kury. Brasília: UnB, 1988.
COSTA, Israel Alexandria. Ética, lei e cuidado: estudos filosóficos acerca da plenitude da ação humana. Pirassununga, SP: Sdmarini, 2021. p. 29-30. [Fonte desta página.]


Atividade(s)

1) Atividade dissertativa básica — 1.1.2.3 A epokhé pirrônica