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A aponia epicurista

O caminho que Epicuro de Samos (341- ca. 270 a.C.), fundador da escola epicurista, propõe como método para alcançar o estado de ataraxia é a ἀπονία [aponia] ou ausência/negação da dor relacionada com a má alimentação do corpo, como as associadas aos excessos ou às carências quanto ao comer, ao dormir, ao movimentar os membros, ao ler, etc.

O pressuposto básico do epicurismo é o de que o sentimento de ataraxia coincide com o da hedoné, o sentimento do prazer da justa suficiência, da moderação nos afetos, da disposição do espírito que se mantém nos limites impostos pela natureza, de modo que o hedonista, no sentido original e rigoroso do termo, é aquele que se satisfaz plenamente com a saciedade das necessidades naturais do corpo, enquanto o tolo é o que, não se satisfazendo com tais tipos de saciedade, procura saciar-se consumindo os produtos artificiais da agitada mecânica social, como as mercadorias, os cargos, as honrarias, etc.

Aqui, importa destacar que o hedonismo é uma das muitas palavras da antiguidade grega que passaram pelo processo histórico da inversão semântica, de modo que, na atualidade, persiste um uso vulgar da palavra que aponta para um significado contrário do que aparece na filosofia epicurista. Contudo, esse processo de inversão tem origem na própria contemporaneidade de Epicuro, que acusava a ignorância e a incompreensão de certas pessoas do seu tempo por fazerem coincidir hedonismo com intemperança e sensualidade:

Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. (EPICURO, 1997. p. 43, grifo nosso).

Com efeito, segundo Laêrtios (1988, p. 285), o próprio Epicuro diz, em suas cartas, "que se contentava apenas com água e um simples pão". Portanto, o prazer buscado pelo epicurista é mais negativo que positivo; o objeto do desejo epicurista assemelha-se àquele que, no acervo artístico brasileiro, aparece na canção intitulada Casinha Branca, em que o compositor/intérprete canta:

Eu queria ter na vida, simplesmente, um lugar de mato verde, pra plantar e pra colher; ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela, para ver o sol nascer (SILVA, 1979, não paginado).

Essa poética que atualiza o arquétipo da simplicidade e da inocência por meio de um discurso no qual a vida no campo é estimada em detrimento do modelo da vida citadina tem sua expressão filosófica no epicurismo. O célebre Jardim de Epicuro é, originalmente, um terapêutico retiro filosófico, um verdejante bosque nos arredores de Atenas, situado longe do tumulto da cidade e da atmosfera de erudição metafísica desencadeada pelos herdeiros da academia platônica e do liceu aristotélico, e próximo ao tranquilo silêncio empírico das matas, cuja imagem tem sido representada em comédias que costumam refletir mais o ressentido imaginário citadino, no qual o interior do afastado Jardim é pintado com fantasias de luxúrias e festins, do que o testemunho dos hóspedes de Epicuro, dos quais os relatos dão conta de um horto comunitário de amigos provenientes de várias partes do mundo, alguns acampados em barracas, mas todos vivendo frugalmente na base de uma economia de trabalho coletivo nutrida de meditações filosóficas, pão, água, hortaliças e, esporadicamente, queijo e vinho, perfazendo uma imagem ainda mais frugal do que a esboçada no quadro The Philosophers Garden, de Strohmayer.

O postulado fundamental da medicina filosófica que Epicuro pratica em seu horto é de que o sistema do real é cognoscível e acolhe moralmente todos os amantes da imperturbabilidade, de modo que qualquer ser humano, independente de idade, sexo, classe, nacionalidade, está apto a entrar no Jardim e ser autarquicamente feliz se o seu objeto de amor é a paz de espírito.

Na física epicurista, a cognoscibilidade do real é garantida pelos mínimos que constituem os seres e o vazio no qual se dá o clinâmen[1]. Nessa física dos mínimos, a sensação torna-se simulacro imediato da coisa real; o conceito ou nome, prolepse[2] imediata do simulacro desencadeada pela repetição da sensação na alma; o sentimento, de dor ou prazer, ressonância interna imediata da sensação; a opinião, construção de fluxos erráticos mediatizados por prolepses.

Tal física abre espaço para uma lógica de cotejamento entre opiniões e sensações voltada à coleta das opiniões verdadeiras, assim como para o prazer catastemático, ou prazer estável, que se conduz pela ação imóvel que se dá no kairós, no tempo dos deuses, diferindo, assim, do prazer cinético, da ação motora que se dá no kronos, no tempo dos homens; o prazer catastemático, portanto, torna os homens semelhantes aos deuses.

A parenética [conjunto de máximas de ética] da filosofia epicurista inclui vários tópicos de recomendações, dos quais destacamos dois: o primeiro diz respeito à tripartição axiológica quanto ao gozo dos prazeres, na qual estão (i) os naturais e necessários, que se prendem à conservação da vida humana e devem ser sempre apreciados em razão da sua natural e finita saciabilidade; (ii) os naturais e não necessários, que são as superfluidades adicionadas aos primeiros e podem ser esporadicamente apreciadas na medida em que sua saciabilidade é passível de finitude; (iii) os não naturais e não necessários, como fama, honra, riqueza, poder, etc. que nunca devem ser apreciados em razão da sua insaciabilidade[3].

O segundo tópico da parenética epicurista diz respeito aos credos vulgares relativos às três coisas com que frequentemente se buscam amedrontar os homens: a morte, a dor insuportável e o castigo no além; credos acerca dos quais Epicuro afirma que devemos nos ver livres, pois, de fato, jamais encontramos essas três coisas, porquanto (i) quando estamos nós, a morte não está, e quando está a morte, não estamos nós[4]; (ii) não sentimos dor se ela é insuportável, pois sentir é suportar e vice-versa; (iii) os deuses no além são imperturbáveis, portanto não se perturbam em contabilizar erros morais dos seres humanos, dos quais são independentes.

Estas seriam, em linhas gerais, as recomendações da medicina filosófica de Epicuro, cujo extrato encontra-se condensado no seguinte quadrifármaco:

1) que se vão os temores em relação aos deuses e ao além; 2) que o pavor em relação à morte é absurdo, pois ela nada é; 3) que o prazer, quando o entendemos corretamente, está à disposição de todos; 4) finalmente, que o mal dura pouco ou é facilmente suportável (REALI; ANTISERI. 2003, p. 272).

Um dos capítulos mais importantes da ética epicurista diz respeito à amizade. Nas Máximas Principais, de Epicuro, se encontraria a seguinte máxima:

(XXVII) De todos os bens que a sabedoria proporciona para produzir a felicidade por toda a vida, o maior, sem comparação, é a conquista da amizade (LAÊRTIOS, 1988, p. 319).

Em nossas pesquisas em torno do epicurismo, verificamos que essa escola estabelece entre a amizade e o ser humano uma relação semelhante à que há entre a quadratura e o quadrado, ou seja, assim como a quadratura é uma qualidade essencial para o quadrado, de modo que, se um quadrado perde a quadratura, ele deixa de ser quadrado, a amizade é uma qualidade essencial para o ser humano, de modo que a expressão homem sem amigo tem o mesmo sentido de quadrado sem quadratura. Portanto, segundo a perspectiva epicurista, para alguém que reclama ser chamado de homem, ter um amigo não é uma questão de mera conveniência social, mas uma questão metafísica, porquanto sem a amizade a própria estrutura ontológica da humanidade se desfaz, ou seja, um homem solitário que não deseja perder a sua condição humana deve cuidar de fazer de si mesmo um amigo.

A associação que o epicurismo estabelece entre a arte de cultivar jardins e a de cultivar amigos está presente em várias filosofias posteriores, destacadamente no empirismo científico de Francis Bacon (1561-1626), para quem o cultivo medicinal de amigos é tão útil para a extração de remédios contra a intranquilidade quanto o cultivo medicinal de plantas:

Um dos efeitos principais da amizade é a tranquilidade e o alívio das preocupações e dos confrangimentos do coração, que paixões de toda a espécie suscitam ou provocam [...] vós podeis usar a salsaparrilha para tratar o fígado, bisturis de aço para abrir a vesícula biliar, flor de enxofre para os pulmões, castóreo para o cérebro; mas não há receita que se possa aplicar ao coração a não ser um verdadeiro amigo (BACON, 1964, p. 5).

Distante dessa perspectiva utilitarista, a partir da qual Bacon pensa a amizade, situa-se a perspectiva crítica, de que Kant dá exemplo ao definir a amizade como a ideia do máximo amor recíproco, de modo que a amizade é conduzida por uma relação de igualdade em que um ama o outro com o mesmo peso que ama a si mesmo e vive-versa; relação essa mais facilmente encontrada nas experiências que se dão no plano das necessidades básicas, quando as pessoas se ligam em solicitude recíproca para atender às exigências naturais da vida, e muito dificilmente encontrada nas experiências que se dão no plano das superfluidades.

Notas

[1] Desvio imprevisível em um fluxo, como quando um objeto, ao ser colocado em meio a uma contínua queda d'água, desvia o seu movimento retilíneo.

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[2] Antecipação, como num flashforward cinematográfico, que interpola a narrativa do presente com eventos que, ao contrário do flashback, ainda ocorrerão.

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[3] "citando as suas [de Epicuro] Máximas Principais [...:] (XV) A riqueza conforme a natureza é limitada e fácil de obter; a requerida pelas opiniões vãs estende-se ao infinito" (LAÊRTIOS, 1988, p. 315; 317).

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[4] "citando as suas [de Epicuro] Máximas Principais [...:] (II) A morte nada é para nós, pois o que se decompõe é insensível, e o que é insensível nada é para nós" (LAÊRTIOS, 1988, p. 315).

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Referências

BACON, Francis. Da amizade. Tradução J. Sarmento de Beires e Jorge Costa Neves. In: JACKSON (org.). Ensaístas Ingleses. São Paulo: Gráfica Editora Brasileira, 1964. p. 3-14.
EPICURO. Carta sobre a felicidade: (a Meneceu). Tradução Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore. 2. reimpressão. São Paulo: Unesp, 1997.
LAÊRTIOS, Diôgenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução Mário da Gama Kury. Brasília: UnB, 1988.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Tradução Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003-2006. 7 v. (Coleção História da Filosofia).
CASINHA Branca. Intérprete: Gilson. Compositores: Gilson Vieira; Joran Ferreira Silva; Marcelo Noms. In: CASINHA Branca. Intérprete: Gilson. São Paulo: Top Tape TT-186, 1979. 1 Vinil LP, Lado B, Faixa 1. Disponível em: https://youtu.be/QYzZ3aZ-pOY. Acesso em: 28 jul. 2021.
THE PHILOSOPHERS Garden, Athens, 1834, de Antal Strohmayer: óleo sobre tela, de 50 x 40 cm. Item 19729276 do https://www.1st-art-gallery.com. ca 2020. 1 fotografia, color., Altura: 429 pixels. Largura: 640 pixels. 300 dpi. 24 BIT RGB. 51Kb. Formato JPG. Disponível em: https://www.wikigallery.org/paintings/234501-235000/234899/painting1.jpg. Acesso em: 28 jul. 2021.
COSTA, Israel Alexandria. Ética, lei e cuidado: estudos filosóficos acerca da plenitude da ação humana. Pirassununga, SP: Sdmarini, 2021. p. 21-28. [Fonte desta página.]


Atividade(s)

1) Atividade dissertativa básica — 1.1.2.2 A aponia epicurista