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A apatheia estoica

Na tradição filosófica do período helenístico, várias correntes filosóficas desenvolveram doutrinas e técnicas para alcançar o estado de ataraxia. Dentre elas destacam-se os estoicos, aqui representados por Zenão de Cítio (333-263 a.C.), para quem o caminho para a ataraxia é a ἀπάθεια [apatheia] — ἀ[a] + πάθος [pathos] —, que se pode traduzir por ausência/negação do sofrimento, ou melhor, por recusa das emoções enquanto movimentos externos que agitam a alma.

Nesse ponto, vale assinalar que, diferente da noção de alma como coisa composta[1] e dividida em interior e exterior, tal como sugere o conto Espelho[2], do Machado de Assis, os estoicos viam a alma humana como uma coisa simples e interior que servia como fonte da vida humana, de modo que exilar um homem em uma ilha deserta não implicaria retirar dele a sua vida e nem parte da sua alma. Embora no latim do Império Romano, como bem observou Arendt (1979, p. 107), a palavra viver coincida com "inter homines esse: estar em companhia de homens'", sugerindo, assim, que a riqueza humana está tanto nos bens internos da alma quanto nos externos, a riqueza humana, como entende o estoico Sêneca (1980, p. 181-194), encontra-se totalmente na alma, de modo que

é a alma que torna ricos os homens: a alma segue-os no exílio; e quando encontra quanto basta para sustentar o corpo, mesmo nas mais ásperas solidões, é rica e goza de seus bens.

Portanto, a palavra apatia que, atualmente, costuma-se associar à inação é, em sua origem, uma ação da alma protegida da agitação das coisas corpóreas, tal como se daria com a ação divina, pois o deus dos estoicos é aquele que age sem se deixar agitar; é um motor que tudo move, mas ele próprio é imóvel.

Além de fundada em uma lógica — na verdade, uma teo-lógica — na qual a ação humana deve imitar a ação do logos divino, a ética estoica funda-se também em uma física na qual os movimentos externos que agitam os acontecimentos aparecem como ontologicamente necessários e cíclicos, de modo que a lei que preside o universo é a do eterno retorno do mesmo. Mas, considerando que essa mecânica admite um espaço de liberdade [livre-arbítrio] no interior da alma, a lógica dita que não é sábia a alma que se deixa comover com o mover dos acontecimentos.

Notas

[1] Essa noção de que a alma é um composto de duas realidades persiste na modernidade, sobretudo nas monarquias, onde considera-se que o monarca é (in)vestido de alma interna e mortal e (re)vestido de alma externa e imortal. Um exemplo: visualizemos um rei francês sentado em seu palácio. Pode-se dizer que ele está não apenas vestido do manto real, mas também do trono no qual se encontra sentado, vestido da sala que o abriga, do piso do palácio que o eleva do chão, do seu reino, enfim, de tudo que o envolve. Esse rei morre e o que o povo diz? Le roi est mort, vive le roi (o rei está morto, viva o rei)! Por quê? Porque se entende que a morte do rei é a morte de sua alma interna; a grande alma, a externa, que é o reino, continua a viver e, para essa grande alma, substituir um rei por outro é quase que apenas uma questão de protocolo.

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[2] Trata-se de um conto que narra como um homem descobriu que tinha duas almas: uma interna e outra externa, a qual aparecia em um espelho.

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Referências

ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. Tradução Mauro W. Barbosa de Almeida. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1979a.
SÊNECA. Consolação à minha mãe Hélvia. Tradução Giulio Davide Leoni. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
COSTA, Israel Alexandria. Ética, lei e cuidado: estudos filosóficos acerca da plenitude da ação humana. Pirassununga, SP: Sdmarini, 2021. p. 18-20. [Fonte desta página.]


Atividade(s)

1) Atividade dissertativa básica — 1.1.2.1 A apatheia estoica