A ética da tolerância

Entre a ética da mesmidade, na qual o ser não suporta a alteridade em absoluto, como no hegelianismo, e a ética da alteridade, em que o ser suporta a alteridade em grau infinito, como no levinasianismo, situa-se a ética da tolerância, na qual o ser suporta a alteridade em certa medida.

Essa medida, do ponto de vista metafísico, seria aquela necessária à aparição do humano e poderia ser figurada pelo quadro Jovem mulher em uma janela, de Salvador Dalí, em que o ser é representado pela parede, e o não ser pela janela, pois, com efeito, janela é, por definição, não parede, vazio de parede. A partir dessa imagem em que o humano se situa na janela do ser, podemos supor que a tolerância é um sistema no qual o bem ou o ser é capaz de suportar o vazio do mal [ou seja, do não-ser] em favor de uma humanidade que enriquece todo o sistema com imagens do interior e do exterior, de modo a ser razoável afirmar que "perder o vazio é empobrecer" (CAROLINA; VILLEROY, 2001, p. 1).

Com efeito, enquanto virtude prática, a tolerância é, em matéria de suporte da alteridade, o meio termo entre a indiferença enquanto vício de excesso e a intolerância enquanto vício de falta, pois daquele que tudo suporta se deve dizer que ele é um indiferente e não um tolerante, motivo pelo qual é correto afirmar que, de certo modo, "a tolerância ilimitada pode levar ao desaparecimento da tolerância" (POPPER, 1974, v. 1, p. 289).

Sabe-se entretanto que, enquanto virtude situada entre dois vícios ilimitados — indiferença e intolerância —, a tolerância não pode ser, em si mesma, ilimitada, mas é compreensível que Popper tenha se expressado dessa forma, porquanto ele tenta explorar a questão do paradoxo presente a uma mentalidade amplamente difundida e que associa a tolerância, de um lado, à impudicícia, como na matéria jornalística Casas de tolerância são paraíso para executivos (1998), e do outro, à tirania, a exemplo da declaração do Conde de Mirabeau (1789), para o qual a palavra tolerância não garante a verdadeira liberdade individual dos cidadãos por deixar à autoridade que tolera o direito de também não tolerar.

Contudo, se quisermos compreender o sentido ético da palavra tolerância, temos de abrir mão dessa mentalidade obscurecida para encontrar, na Filosofia das Luzes, o seu caráter de bandeira de luta do movimento político-pedagógico que os Philosophes do XVIII francês desencadearam contra o fanatismo religioso, razão pela qual Cassirer (1997, p. 224) insiste que, nesse contexto, "a tolerância é uma outra coisa muito diversa da recomendação de uma atitude lassa e indiferente".

De fato, em nome da tolerância filosófica, Voltaire vociferava o seu intuito de Écrasez l'infâme [Esmagar o infame] enquanto pregava ser a tolerância um "apanágio da humanidade" (VOLTAIRE, 1978, p. 290), destacando, assim, a importância epistemológica de que cada indivíduo pague o preço de ser um animal que naturalmente se encontra nas trevas da ignorância e, por isso, tem de contar com os seus semelhantes para obter luzes. No sentido do fortalecimento dessa luta filosófica, Rousseau busca corrigir as falhas de Voltaire, aconselhando-o a abrir mão do método da vociferação ao discursar em favor da tolerância, alertando ser inadequado ao verdadeiro tolerante vociferar em vez de falar mansamente e argumentando que a força de uma pedagogia da tolerância estaria na harmonia entre a ideia e o tom, entre a gramática e a retórica. Jean-Jacques busca também assinalar que o valor supremo de uma ética da tolerância não reside em sua importância epistemológica, mas em sua importância moral, pois é preferível ao indivíduo humano viver em uma sociedade iletrada, mas tolerante, do que viver numa sociedade letrada e intolerante, pois a prática filosófica necessária a todo ser humano depende menos do letramento do que da capacidade de escutar a voz da natureza, seja a que vem dos instintos primitivos, seja a que vem da consciência, pois esta seria um hábito natural pelo qual a alma humana intui os imperativos éticos válidos para todos os homens, destacadamente os que ordenam aos homens viverem em regime de fraternidade, de liberdade e de igualdade.

O Contrato Social de Rousseau pode ser lido como um livro que projeta os imperativos éticos emanados da consciência do indivíduo humano para o plano das leis civis emanadas da vontade geral da república, de modo a fazer com que o ordenamento ético ganhe a força necessária para impedir que, na república, um cidadão seja vítima da intolerância do outro. A máxima que ordena a tolerância, nesse contexto, assume um caráter utilitário na medida em que serve como regra que tempera os conflitos a fim de que eles não se transformem em guerras, o que implica obrigar o Estado à laicização e a Igreja à secularização[1].

Notas

[1] Vale destacar que os conceitos de laicização e de secularização são os temas centrais da Carta sobre a Tolerância (1685), de John Locke (1965, p. 93), que se esforça por estabelecer uma separação clara entre a competência do poder civil e a do eclesiástico, a exemplo dessa passagem lapidar: "uma coisa é persuadir, outra mandar; uma coisa é agir com argumentos, outra agir com éditos e obrigar com a espada".

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Referências

CONFESSO. Intérprete: Ana Carolina. Compositores: Ana Carolina e Antônio Villeroy. In: ANA Rita Joana Iracema e Carolina. Rio de Janeiro: BMG Brasil Ltda; Ariola, 2001. 3'28''. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8WqLXnIqmvM. Acesso em: 27 maio 2021.
CASAS de tolerância são paraíso para executivos. Folha de Londrina, Londrina, 18 abr. 1998. Disponível em: https://www.folhadelondrina.com.br/cidades/casas-de-tolerancia-sao-paraiso-para-executivos-71779.html. Acesso em: 23 maio 2021.
CASSIRER, Ernst. A Filosofia do Iluminismo. Tradução Álvaro Cabral. 3. ed. Campinas-SP: Editora da Unicamp, 1997.
GALA-SALVADOR DALÍ FOUNDATION. Jovem mulher em uma janela (Noia a la finestra), de Salvador Dalí (Figueres, 11 maio 1904 - 23 jan. 1989), criada em 1925: óleo sobre tela, 105 × 74,5 cm. 27 ago 2019. 1 fotografia, color., Altura: 373 pixels. Largura: 267 pixels. 96 dpi. 24 BIT RGB. 19,2Kb. Formato JPG. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Young_Woman_at_a_Window#/media/File:Young_Woman_at_a_Window.jpg. Acesso em: 27 maio 2021..
LOCKE, John. Carta sobre a Tolerância. Tradução João da Silva Gama. Lisboa: 70, 1965.
POPPER, Karl Raimund. A sociedade aberta e seus inimigos. Tradução Milton Amado. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1974. 2 v., v 1.
VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. Tradução Bruno da Ponte; João Lopes Alves. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
COSTA, Israel Alexandria. Ética, lei e cuidado: estudos filosóficos acerca da plenitude da ação humana. Pirassununga, SP: Sdmarini, 2021. p. 60-63. [Fonte desta página.]


Atividade(s)

1) Atividade dissertativa básica — 2.1.2 A ética da tolerância