A ética da alteridade
O grande mentor da ética da alteridade é Emmanuel Levinas (1906-1995), cuja filosofia se inscreve na história das ideias caras à ontologia da consciência filosófica, de modo que seus escritos dialogam com textos de Platão, Descartes, Bergson, Kant, Hegel e Heidegger.
Em Ética e Infinito, ao observar que "o facto de ser é o que há de mais privado", Levinas (2013, p. 43) propõe que tal privacidade seja interpretada como privação daquilo que enriqueceria o ser pela via da de-posição da sua soberana mesmidade. O outro, em favor do qual o ser se depõe, seria menos o semelhante alheio à consciência individual de um ser humano do que uma estrutura filosófica que resulta do des-inter-esse do próprio ser pela sua posição.
Na perspectiva levinasiana, a deposição da soberania do ser si mesmo significaria a libertação ontológica das junções de sínteses totalizantes dos grandes sistemas filosóficos em direção às junções do frente a frente dos humanos; da fenomenologia das faces à escutatória dos rostos; das ideias teoréticas produzidas pelo cogito cartesiano à ideia não teorética de infinito, ou seja, ao desejo; da responsabilidade assumida pelo que se faz à responsabilidade incumbida pelo que não se faz; da cognoscibilidade à sociabilidade; do conhecimento intencional às relações proximais; da rítmica roda ao arrítmico plano infinito; da egóica virilidade à feminina alteridade.
Para Levinas, a essência do sujeito, o que dá a ele a sua identidade inalienável, é a culpa absoluta, de modo que, ao penso, logo existo de Descartes, se opõe o culpo-me, logo existo, do Zossima, personagem de Os Irmãos Karamázov, o qual, em meio às suas lembranças da adolescência e da mocidade, declara: "eu realmente sou culpado por todos, talvez o mais culpado" (DOSTOIÉVSKI, 2019, p. 343). Sob tal prisma, "a filosofia primeira é uma ética" (LEVINAS, 2013, p. 62).
Segundo Levinas (2013, p. 71), "o rosto fala" e, quando ele se refere a rostos, não está a se referir às caras dos animais antropoides junto às quais podemos discernir a cor da pele e a dos olhos, pois o antropos tem, além da máscara que aparece, um rosto que não se manifesta senão como voz divina, como quando fechamos os olhos para escutar atenta e muito profundamente o que o outro diz, pois só se conhece uma pessoa, aquilo que soa a partir do seu fundo moral, depois de tê-la escutado com a alma. Eis porque, para Levinas, a face é só uma fachada fenomênica de algo que, em si mesmo, nada tem de fenomênico:
Não sei se podemos falar de 'fenomenologia' do rosto, já que a fenomenologia descreve o que aparece. Assim, pergunto-me se podemos falar de um olhar voltado para o rosto, porque o olhar é conhecimento, percepção. Penso antes que o acesso ao rosto é, num primeiro momento, ético. Quando se vê um nariz, os olhos, uma testa, um queixo e se o pode descrever, é que nos voltamos para outrem como para um objecto. A melhor maneira de encontrar outrem é nem sequer atentar na cor dos olhos! (LEVINAS, 2013, p. 69).
O fato do rosto levinasiano não aparecer, entretanto, não significa que ele não se manifesta, já que o rosto é uma realidade. Contudo, "para Levinas, a manifestação do rosto é uma epifania, uma epifania como visitação" (MELO, 2003, p. 109), observa o autor do livro A Ética da Alteridade em Emmanuel Levinas, destacando a semelhança entre a experiência da alteridade diante de um rosto com a experiência da Sarça Ardente, narrada na Torah, sugerindo, assim, que um eu que visse o rosto do outro seria consumido como Sêmele diante do Zeus manifestado.
Com efeito, nas epifanias narradas pelas tradições mítico-religiosas hebraicas e gregas, a manifestação do Deus necessita de uma fachada enigmática, como a sarça ardente de Moisés ou o amante humano de Sêmele, sem a qual o humano seria destruído, pois o imperativo maior dessas epifanias não permite a nenhum humano ver o esplendoroso rosto do Deus em sua forma originária. Tanto a mítica grega quanto a mosaica sugerem a existência de um véu na fronteira entre a face profana e o rosto sagrado que reclama o escrúpulo para com o outro.
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Referências
DOSTOIÉVSKI, Fiódor Mikhailovitch. Os Irmãos Karamázov. Tradução Paulo Bezerra. 2. ed. São Paulo: 34, 2019.
LEVINAS, Emmanuel. Ética e Infinito. Tradução João Gama. Lisboa: 70, 2013.
MELO, Nélio Vieira de. A Ética da Alteridade em Emmanuel Levinas. Porto Alegre: Edipucrs, 2003.
COSTA, Israel Alexandria. Ética, lei e cuidado: estudos filosóficos acerca da plenitude da ação humana. Pirassununga, SP: Sdmarini, 2021. p. 56-59. [Fonte desta página.]
Atividade(s)
1) Atividade dissertativa básica — 2.1.1 A ética da alteridade