A ética da finitude
A ética da finitude, tal como é pensada a partir da filosofia de Martin Heidegger (1889-1976), não é uma recomendação moral ou comportamental dirigida ao ser humano, mas uma constatação da natureza ôntica do homem enquanto um ser-para-a-morte.
O caráter ambiental dessa ética não se restringe a sistemas ecológicos naturais que precisam ser representados como sujeitos do direito de proteção contra as pegadas humanas economicamente insustentáveis. Apesar de contemplar os interesses de tais direitos, a ética da finitude se inscreve no campo da metafísica heideggeriana, que assinala a vulnerabilidade intrínseca do dasein [o ser aí presente] em que vigora o ser-para-a-morte, o perigo ôntico do esquecimento e do ensurdecimento em relação à finitude constitutiva do ser humano.
Para enfatizar a relação entre essa ética da finitude e o cuidado, Heidegger, em seu livro Ser e Tempo, lança mão de uma fábula narrada pelo escritor Caio Júlio Higino (64 a.C. - 17), segundo a qual, certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro e logo teve uma ideia inspirada: tomou um pouco do barro e deu-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter, a quem Cuidado pediu que soprasse espírito na forma, o que Júpiter fez de bom grado. Porém, quando Cuidado quis dar nome à criatura a qual havia moldado, Júpiter o proibiu, exigindo que fosse posto o seu próprio nome. Enquanto Júpiter e Cuidado discutiam, um novo personagem intromete-se na demanda: a Terra (Tellus), que também quis conferir o seu nome à criatura, alegando ter sido ela feita de barro, material do seu corpo. Para pôr fim à discussão, os três concordaram em pedir a Saturno que funcionasse como árbitro. Este tomou a seguinte decisão: Você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito por ocasião da morte dessa criatura. Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer. Você, Cuidado, quem a moldou, será deixada junto a ti a criatura enquanto ela viver. E uma vez que entre vocês há acalorada discussão acerca do nome, decido eu: esta criatura será chamada Homem, porque feita de húmus, terra fértil.
Nessa antropogênese, o tempo cronológico situa-se como advento que separa o devir humano em tempo de automação orgânica e tempo de consciência, em vida biológica e existência moral. Se adotarmos a perspectiva da maioria das filosofias de vertente existencialista, podemos dizer que homem não existe fora do tempo em que transcorrem a cronologia e a finitude da vida e, no que diz respeito à Fábula de Higino, isso significa dizer que, enquanto Saturno não fez a partilha decisória da contenda, o homem não existia; que, foi apenas depois de ter recebido a mortalidade que lhe adveio a consciência de sua existência no sentido filosófico, isto é, de sua separação em relação a tudo o mais, porque, ao saber-se o único que conhece a própria mortalidade, o homem se vê no direito de acreditar que tudo permanece enquanto ele passa.
A condição ética desse ser existente é humana no sentido de fertilizante, pois a missão do homem é fertilizar a terra, fazer do mundo um jardim. Esse homem, ao perceber que sua vida não é uma necessidade no sistema cósmico, percebe-se supérfluo e, por isso mesmo, lançado ao mundo para embelezá-lo[1].
O dever ético, aqui, tem uma conotação existencialista na medida em que, para Heidegger, viver é estar em débito. Retomemos a Fábula: era natural para o escultor que seu semelhante na forma também se chamasse Cuidado, mas o critério da semelhança também dá a Júpiter o direito de chamá-la Júpiter, porquanto havia semelhança entre a inteligência do deus e a da criatura; como havia também a semelhança entre a matéria da Terra e a da criatura.
Quem arca com as custas dessa contenda é a própria criatura, a quem um deus do tempo cronológico, Saturno, dá o nome de Homem e o sela de finitude, de modo que a morte aparece aí como solução de um contrato transcendental que necessita de um prazo de validade para o cuidado em relação ao corpo, à alma e ao tempo de vida, a fim de que cada demandante tenha de volta o que é seu por direito. Desse modo, o existir humano torna-se uma espécie de comodato[2], pois, enquanto ele está submetido ao cuidado, ele deve o seu corpo finito a Gaia, deve o seu espírito finito a Júpiter e deve o seu tempo finito a Cronos. A única coisa que permanece sendo do homem é o seu nome, pois, ao morrer, o corpo humano fertiliza a terra.
A ideia de finitude, aqui, articula-se com uma ética que considera viciosos e maus todos os sistemas que parecem não conhecer limites, como o capitalismo, para o qual nunca há uma quantidade finita de dinheiro que possa satisfazer o afã de enriquecimento monetário, ou ainda como o tecnicismo moderno, para o qual nunca há uma quantidade finita de energia que possa satisfazer o afã de exploração de recursos naturais. Com efeito, a ética da finitude assinala a perversidade da prática procustiana[3] pela qual a mathesis universalis tenta esticar os membros da concretude para que esta caiba na cama da desmedida, transformando, assim, economia em crematística, valor-de-uso em valor de troca, matéria em energia, virtude em vício, etc.
Nessa perspectiva, a falta de senso de limite não é apenas antiética. Em certo sentido, ela é também antiestética, pois os fenômenos e suas belezas estão ligados à finitude da forma, à formosura. A estátua de Higino só poderia ser um fenômeno belo na medida em que ela é finita no espaço e bem acabada, perfeita [já feita], pois se as porções que constituem a estátua humana – o corpo, a razão, o tempo − fossem infinitas, em vez de formas haveria deformações; se infinita fosse a razão humana, em vez das cores da emoção, haveria uma ofuscante e cega lucidez; se infinita fosse a existência humana, em vez das músicas das estações, só haveria o tedioso círculo de um tempo infindo. Portanto, toda bela ação e toda bela forma foge dos círculos viciosos e busca a medida áurea. Sem respeito à finitude, toda ação e toda forma cairiam na hybris [desmedida], a qual, em todos os aspectos, seria repugnante.
Notas
[1] A beleza é um dos aspectos centrais da resposta à pergunta que Hans Jonas postula para tratar do conceito de responsabilidade: "se posso destruir o mundo e não o destruo, é porque mundo é belo"; o amor mundi daquele que pode destruir o seu mundo se justifica pelo kalós, o belo admirável e nobre. Outro aspecto central da resposta que evoca o tema da responsabilidade é a riqueza da liberdade diante do absurdo: existir como um ser livre é poder decidir se a existir vale ou não a pena enquanto o não existir, ou existir apenas como um ser condenado à existência — e não como um "condenado a ser livre", para usar a expressão de Sartre (2003, p. 543) — é não poder decidir se é melhor existir ou não existir. Sobre a questão de saber se, para o humano, é melhor existir ou não existir, vale ler a Carta sobre a Previdência, onde Rousseau debate esse tema com Voltaire e ressalta a primazia do cuidado da liberdade humana em relação aos descuidos da civilização tecnológica.
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[2] Comodato é um empréstimo para uso gratuito de uma coisa durante um certo período de tempo, com o dever de, findo o prazo, devolver a mesma coisa ao legítimo proprietário. Na perspectiva da ética da finitude, a coisa vida é de graça, enquanto o viver é um débito.
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[3] Procusto, personagem da mitologia grega, era um anfitrião perverso que costumava induzir estrangeiros a pernoitar em um leito para deformá-los por esticamento de seus corpos quando estes eram menores do que o tamanho equivalente ao da cama.
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Referências
COSTA, Israel Alexandria. Ética, lei e cuidado: estudos filosóficos acerca da plenitude da ação humana. Pirassununga, SP: Sdmarini, 2021. p. 72-77.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Tradução Márcia de Sá Cavalcante. 9. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002. 2 v., v. 2.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Lettre a Voltaire 18 Août 1756 [Sur la Providence]. In: ROUSSEAU, J.-J. Œuvres Complètes. Édition publiée sous la direction de Bernard Gagnebin et Marcel Raymond. Paris: Gallimard, 1969. 5 v., v. 4, 1959 p., p. 1057-1075. (Bibliothèque de la Pléiade).
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Tradução Paulo Perdigão. 12. ed. Petrópoles, RJ: Vozes, 2003.
Atividade(s)
1) Atividade dissertativa básica — 2.2.1 A ética da finitude