A felicidade aristotélica
Um dos contrastes entre Platão e Aristóteles que o pintor Rafael Sanzio busca retratar em seu quadro A Escola de Atenas diz respeito ao livro que cada qual carrega.
O Timeu, de Platão, que aparece em uma linha acima da Ética, de Aristóteles, é um livro que trata de uma coisa altamente boa: o bem da alma intelectual libertada da terra; a beatitude, um bem inatingível pelo homem cuja condição terrena o impede de contemplar plenamente o bem pertencente ao mundo das ideias. Com efeito, o modo como a ética platônica toca a vida do homem terreno assemelha-se ao modo como o sol toca a terra, ou seja, apenas por uma espécie de emanação luminosa. O sujeito iluminado por tal ética é o intelecto encarnado e a figura humana mais próxima disso é a do filósofo. Tal vislumbre de existência ética só poderia ser projetada para o plano político mediante a coincidência entre a figura do rei e a do filósofo, conforme se lê no livro V da República:
Enquanto não forem, ou os filósofos reis nas cidades, ou os que agora se chamam reis e soberanos filósofos genuínos e capazes, e se dê esta coalescência do poder político com a filosofia, enquanto as numerosas naturezas que actualmente seguem um destes caminhos com exclusão do outro não forem impedidas forçosamente de o fazer, não haverá tréguas dos males, meu caro Glaucon, para as cidades, nem sequer, julgo eu, para o género humano (PLATÃO, 2001, V, 473 d, p. 251).
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Recorte iconográfico do Platão e Aristóteles da Escola de Atenas, de Rafael Sanzio. Platão aponta para o alto e traz o Timeu na vertical; Aristóteles estende a mão para a frente e traz a Ética na horizontal. (COSTA, 2021). |
Ainda assim, tal coalescência ético-política apenas ensejaria uma trégua momentânea do mal, pois a passagem do tempo terreno, segundo Platão, necessariamente degenera toda instituição humana, de modo que é apenas na eternidade do éter solar que se dá a verdadeira ética. Tal concepção encontra-se ilustrada na imagem rafaelita do Platão através da verticalidade do Timeu e da centralidade do topo do livro em relação às formas helicoidais de cores ígneas, denotando que o lugar próprio da ética platônica é o centro do inalcançável sol.
A Ética aristotélica, por sua vez, parece situada no topo de uma montanha e não no interior da vermelhidão solar. Essa ética também remete-se a uma coisa altamente boa, mas a sua altitude parece atingível, pois se trata do bem do homem terreno. Em vista da atingibilidade desse bem, ele é figurado como um círculo que serve de alvo na arte da arquearia, de modo que a área do círculo é o bem intitulado boa vida, e o centro do círculo é o bem intitulado felicidade. Desse modo, a arte política pela qual o homem-arqueiro acerta no alvo da boa vida conquista a sua excelência pela arte ética, pela qual o homem-arqueiro acerta no centro desse alvo.
Aristóteles enfatiza que a ciência da ética não é para jovens de idade e de caráter, pois se trata da mais difícil de todas, uma vez que todas as demais ciências são instrumentos da ética. Além disso, mesmo dominando um grande número de ciências, a prática da ética requer experiência e não apenas saberes teóricos.
Para ilustrar como a ética é um saber experimentado, isto é, um saber que demanda longa experiência de vida, podemos narrar uma fábula de sabor aristotélico: Conta-se de um jovem príncipe que, ao se tornar discípulo de um velho arqueiro, põe na cabeça que deveria se esforçar para ser melhor que seu mestre na arte de acertar o alvo e, para isso, treina obsessivamente no campo de planície da escola, até que, julgando estar em condições de desafiar seu guia, chama-o à disputa. O discípulo atira duas flechas que acertam na mosca do alvo mais distante, ao que o mestre responde: Muito bem. Mas ainda não estás pronto! e guia o perplexo aluno ao alto de uma montanha, até que chegam a um lugar assustador, no qual uma frágil ponte de corda suspensa balança violentamente sob um tempestuoso vento que uiva por sobre um abismo entre morros selvagens cobertos de névoa. Então o mestre ordena que o discípulo vá ao meio da ponte e acerte o centro de um tronco situado a uma grande distância quase oculta pela neblina. O discípulo, amedrontado e revoltado ante o que lhe parece impossível e injusto, dá as costas ao mestre, mas se detém, espantado, ao vê-lo, no centro da ponte, acertando o alvo.
Esse exemplo auxilia-nos a entender que a atingibilidade do bem aristotélico está longe de implicar a facilidade de atingir tal bem, conforme se lê na própria Ética a Nicômaco:
É possível errar de muitos modos (pois o mal pertence à classe do ilimitado e o bem à do limitado, como supuseram os pitagóricos), mas só há um modo de acertar. Por isso, o primeiro é fácil e o segundo difícil — fácil errar a mira, difícil acertar o alvo. Pelas mesmas razões, o excesso e a falta são característicos do vício, a mediania da virtude (ARISTÓTELES, 1973, Liv. II, Cap. 6, Seç. 1106b 30, p. 73).
Assim como o centro de um alvo circular situa-se na mediania e não tem pontos opostos, as virtudes necessárias para ser possível atingir o fim ético devem atentar para a mediania, não devem ter pontos opostos, devem evitar os vícios da falta e do excesso. A mediania em tudo deve ser, portanto, a condição de possibilidade do sucesso[1] do arqueiro ético. Se as disposições técnicas relativas a fatores como peso, tensão, inclinação, luminosidade, etc. precisam estar bem ajustadas para que seja possível ao arqueiro acertar o alvo, as disposições morais relativas a sentimentos como medo, cólera, apetite, compaixão, etc. precisam estar bem ajustadas para que seja possível ao ético acertar a felicidade. Se, por exemplo, o peso de uma flecha é demais, a gravidade se torna um empecilho para acertar o alvo; se é de menos, o vento é um empecilho: a flecha a ser lançada ao alvo deve estar com seu peso ajustado na mediania, deve apresentar um peso excelente, ajustado na média de ouro [aurea mediocritas]. Coisa semelhante ocorre ao medo humano: se é demais, torna-se em vício de covardia, que é um empecilho à consecução da felicidade; se é de menos, passa-se ao vício da temeridade, também um empecilho: o homem lançado à felicidade deve estar com seu medo ajustado na mediania, deve apresentar um medo virtuoso [ao qual Aristóteles dá o nome de coragem]. Portanto, virtude ética é excelência moral.
O tipo de conhecimento que capacita o homem a deliberar correta e convenientemente sobre as suas contingentes e variáveis disposições, escolhendo quais situá-las na faixa das boas práticas (virtudes) e quais na faixa das más (vícios), conduzindo assim o desejo ético ao bem da felicidade, é a sabedoria prática: algo difícil de encontrar nos jovens de anos ou de caráter, tal como ilustrado pelo conto. Contudo, é pela sabedoria filosófica que um homem se torna verdadeiramente feliz "pelo fato de estar na sua posse e de atualizar-se" (ARISTÓTELES, 1973, Liv. VI, Cap. 12, Seç. 1144a 5, p. 151), como uma flecha que, sozinha, possuísse a si mesma como alvo. Isso porque
embora um filósofo, assim como um homem justo ou o que possui qualquer outra virtude, necessite das coisas indispensáveis à vida, quando está suficientemente provido de coisas dessa espécie o homem justo precisa ter com quem e para com quem agir justamente, e o temperante, o corajoso e cada um dos outros se encontram no mesmo caso; mas o filósofo, mesmo quando sozinho, pode contemplar a verdade, e tanto melhor o fará quanto mais sábio for. Talvez possa fazê-lo melhor se tiver colaboradores, mas ainda assim é ele o mais auto-suficiente de todos (ARISTÓTELES, 1973, Liv. X, Cap. 7, Seç. 1177a 25 – 1177b, p. 228-229).
Notas
[1] Note-se que falamos em condição de possibilidade do sucesso e não em condições do sucesso, pois a sorte é um fator que também entra na equação da ética aristotélica.
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Referências
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
PLATÃO. A República. Tradução Maria Helena da Rocha Pereira. 9. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
COSTA, Israel Alexandria. Ética, lei e cuidado: estudos filosóficos acerca da plenitude da ação humana. Pirassununga, SP: Sdmarini, 2021. p. 11-16. [Fonte desta página.]
Atividade(s)
1) Atividade dissertativa básica — 1.1.1 A felicidade aristotélica