Da infoética arendtiana
Um dos pontos-chave para pensar as relações entre ética e informação é o imperativo infoético de não faltar com a devida verdade, pois há verdades que os homens não devem uns aos outros e há verdades que os homens devem uns aos outros. Ou seja, o homem não falta com a devida verdade quando, por exemplo, escreve uma obra de ficção literária declarada como tal, ou ainda quando sofre de letheia[1] [esquecimento]. Com efeito, não se pode exigir de Esopo ou de La Fontaine, a verdade enquanto realidade oposta às suas fábulas, pois seus livros são constituídos de ficções declaradas como tais e, além disso, nem sempre ficcionar é mentir, mas, pelo contrário, pode até ser um modo de dizer a verdade por outros meios. Também um homem não pode exigir de outro a aletheia — palavra grega traduzível por verdade —, visto que esse tipo de verdade diz respeito ao ato de abrir os próprios olhos, como quem, de repente, se lembra de algo.
As verdades devidas são, em primeiro lugar, a veritas latina, que diz respeito ao dever de não mentir nem difamar, nem dar testemunho falso junto às informações que transitam no mundo da comunicação humana; em segundo é a emunah hebraica, a fiabilidade, a certeza de que se está ligado a algo ou alguém em que se pode confiar.
Em síntese, o que se opõe à verdade devida é a mentira, a qual, à luz dos imperativos infoéticos, é um vício moral por estar ligado à infinitude do errar [a mosca do alvo ético da verdade], enquanto a virtude da verdade diz respeito à finitude do acertar, pois, como escreve Aristóteles,
é possível errar de muitos modos (pois o mal pertence à classe do ilimitado e o bem à do limitado, como supuseram os pitagóricos), mas só há um modo de acertar. Por isso, o primeiro é fácil e o segundo difícil — fácil errar a mira, difícil acertar o alvo. Pelas mesmas razões, o excesso e a falta são característicos do vício, a mediania da virtude (ARISTÓTELES, 1973, Liv. II, Cap. 6, Seç. 1106b 30, p. 73).
Consideração semelhante lê-se em um célebre ensaio acerca dos mentirosos:
Se, como a verdade, a mentira tivesse apenas um rosto, estaríamos em melhores termos, pois tomaríamos como certo o oposto do que dissesse o mentiroso. Mas o reverso da verdade tem cem mil formas e um campo indefinido. Os pitagóricos consideram o bem como certo e finito, e o mal como infinito e incerto. Mil caminhos desviam do alvo; um leva a ele (MONTAIGNE, 2000, v. 1, p. 51).
A esse respeito, Montaigne recupera um texto do Livro XIX da Cidade de Deus, de Agostinho, segundo o qual é preferível estar na companhia de um cão conhecido do que na de um homem de linguagem desconhecida, porquanto a linguagem falsa é menos sociável do que o silêncio.
Importa assinalar ainda que a verdade devida, aquela que dependente das boas práticas em matéria de infoética, tem natureza factual e contingente, e não racional e necessária. Uma verdade racional e necessária, como 2 + 2 = 4, parece imune[2] à chamada desinfodemia enquanto sistema organizado de desinformações e/ou más-informações, ou seja, de falsidades voluntárias e/ou involuntárias, pois, com efeito, devemos chamar de falsidade ao desvio em relação à verdade factual ou contingente, deixando termos como erro, ignorância, absurdo para o desvio em relação à verdade racional e necessária. Com efeito, as disseminações fakes lançadas nas redes de telecomunicações não buscam a anuência das pessoas em favor de inverdades lógico-matemáticas do tipo 7+5=7, mas de inverdades histórico-fenomênicas do tipo entre os anos de 1933 e 1945, a população da Mongólia implantou o nazismo na Alemanha.
Não obstante, o fato de que a desinfodemia só corrói factualidades não é de menor importância, pois, tal como prevê Hannah Arendt, em Verdade e Política, a desinformação pandêmica estabelece um
processo de destruição do sentido mediante o qual nos orientamos no mundo real — incluindo-se entre os meios mentais para esse fim a capacidade de oposição entre verdade e falsidade (ARENDT, 1979b. p. 317-318).
É que, uma vez que nenhuma imagem exemplar pode alimentar de realidade o nosso conceito prático[3] da verdade, o próprio conceito de verdade fica sem chão, pois a verdade devida, segundo Arendt, é comparada a um chão de terra figurado como base sobre a qual os homens caminham.
Esse ficar sem chão, segundo a autora, pode se dar em dois sentidos: o do ocultamento e o da destruição. No primeiro caso, é como se o mentiroso colocasse um tapete por sobre a verdade para que andássemos sobre uma mentira; no segundo, tudo se passa como se o embusteiro nos surpreendesse com uma rasteira ou um empurrão em direção a um abismo sem fundo, produzindo, em um primeiro momento, uma flutuação vertiginosa[4].
O problema maior apontado por Arendt é a perda da sensação da vertigem enquanto dura a flutuação, como se, desesperadas de voltar ao solo da verdade, as pessoas se habituassem a flutuar, transformando a acrofobia em acrolatria e, assim, tornando-se indiferentes à verdade.
Tal indiferença é precisamente o cerne da novidade da palavra post-truth [pós-verdade], assimilada pelo dicionário Oxford, em 2016, para assinalar a chegada de um novo regime mundial caracterizado pela indiferença das pessoas para com as verdades factuais.
Com efeito, em face da atual possibilidade de acessar os acervos das bibliotecas e dos museus espalhados no globo, todos têm condições de checar a veracidade das narrativas que recebem em seus aparelhos de mensagens, mas simplesmente não o fazem porque perderam o interesse em caminhar sobre o solo da verdade, preferindo, em vez disso, viver flutuando sem vertigens e, assim, praticando indiferenças antiéticas junto às seguintes instâncias fenomênicas:
(a) falsas equivalências, como quando um parecer sobre Kant que é falado por um jovem analfabeto no youtube e o que é escrito por um experiente professor de filosofia são vistos como simétricos, ou seja, como tendo, ambos, o mesmo peso;
(b) testemunhais falsos, os quais se manifestam nos acolhimentos de fakes baseados em narrativas de experiências supostamente testemunhadas por pessoas vizinhas;
(c) cultura do amadorismo ou desvalorização social do profissional;
(d) anticientificismo, manifestado ora pela fake science, ora pelo negacionismo ou ódio à ciência e às suas instituições; (e) pesquisa customizada, pela qual se tem um acesso limitado às informações em razão de características pessoais privadas; (f) crimes de privacidade, com os quais se tem colaborado grandemente, sobretudo via compartilhamento de mensagens de interesse de grupos criminosos; (g) baixa consonância das câmaras de eco, que determina a baixa tolerância em relação às dissonâncias cognitivas; etc.
Notas
[1] A aletheia [não esquecimento] refere-se a um tipo de verdade associada a um conhecimento de si experienciado como reminiscência. Segundo o mito de Er, que Platão descreve em A República, o vivente humano que passa esquecido de sua origem divinal é um alma que, antes de se mesclar ao corpo terreno, bebeu demais das ultramundanas águas do rio Lethes.
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[2] Vale destacar que George Orwell, em seu livro 1984, não parece concordar com tal imunidade, porquanto a desinfodemia que ele descreve em sua distopia chega a contaminar verdades racionais ao se aliar às técnicas terroristas da polícia do pensamento.
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[3] Segundo Kant, mentor de Arendt, todos os conceitos, sejam teóricos ou práticos, necessitam de suas respectivas imagens para terem consistência de ser. O conceito teórico de triângulo, por exemplo, se não fosse alimentado pela produção mental da imagem esquemática do triângulo, perderia o seu sustentáculo ontológico, seria como se não existisse absolutamente.
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[4] Os horrores da vertigem em sua associação com a mentira são explorados por Alfred Hitchcock em seu longa-metragem Vertigo (1958), conhecido, no Brasil, sob o título de Um corpo que cai e, em Portugal, como A mulher que viveu duas vezes.
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Referências
ARENDT, Hannah. Verdade e Política. In: ARENDT, H. Entre o Passado e o Futuro. Tradução Mauro W. Barbosa de Almeida. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1979b. p. 282-325.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
MONTAIGNE, Michel de. Os ensaios. Tradução Rosemary Costhek Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 3 v., v. 1.
COSTA, Israel Alexandria. Ética, lei e cuidado: estudos filosóficos acerca da plenitude da ação humana. Pirassununga, SP: Sdmarini, 2021. p. 45-51. [Fonte desta página.]
Atividade(s)
1) Atividade dissertativa básica — 1.2.3 Da infoética arendtiana
2) De aprofundamento: O conceito de câmera de eco; o conceito de dissonância cognitiva.